Aprendiz de avessos,
colhi lição de quem nada ensina
senão o talento de ser sem querer.
.
A chuva me ensinou telhados
e anoiteci nas letras de um livro.
.
A pedra me explicou a morte
no passo antecipado sobre a lápide.
.
Num mundo em que amar
se faz de fúrias pequenas e ódios perenes
em ti derramei meu corpo
para habitar a sombra da água.
.
Não importa quem dentro de mim respira :
o amor é a noite
iluminando o relâmpago.
E eu não saberei nunca viver
de tanto te sonhar.
.
Como um Sol
que apenas existe
na sua própria ardência,
eu sou só amando.
.
A minha luz é um luar
à procura de uma outra Lua.

Mia Couto
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Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis.
E é tão pouco.

…
Eugénio de Andrade
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Só a rajada de vento
dá som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão
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Não me disseste amante, madrugada, pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada, não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

Rosa Lobato de Faria
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O teu silêncio oculta as mentiras, histórias, que gostarias de contar-me.
Nele guardas as verdades, como jóias.
O teu silêncio oculta o amor que querias abraçar, até ao desespero .
Nele encerras as tuas angústias e lágrimas.
O teu silêncio oculta o caos da paixão.
Nele escondes as chamas que te devoram.
O teu silêncio oculta a verdade, até de ti próprio.
E cais num precipício sem fim…

Luísa L.
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Não importa onde você parou…
Em que momento da vida você cansou…
O que importa é que sempre é possível recomeçar. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…
É renovar as esperanças na vida e, o mais importante… Acreditar em você de novo.
Sofreu muito neste período? Foi aprendizado…
Chorou muito? Foi limpeza da alma…
Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia…
Sentiu-se só diversas vezes? É porque fechaste a porta até para os anjos…
Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora…
Onde você quer chegar? Ir alto? Sonhe alto… Queira o melhor do melhor…
Se pensarmos pequeno… Coisas pequenas teremos…
Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor… O melhor vai se instalar em nossa vida.

Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.
Carlos Drummond de Andrade
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Para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
talvez seja apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
…
De nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
…
Se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui só há a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro
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Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
.
Entretanto, deixai que me não cale
até que o mundo funda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor prescruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira
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Cansado da poesia,
o poeta levou os seus poemas
para junto de um rio.
.
Queria rasgar os versos
um por um,
dilacerar a palavra,
truncar a ideia,
desfibrar o coração.
.
Para o fim da poesia,
procurou um rio que não tivesse nome.
Teria que ser assim :
junto a um rio sem nome.
.
Nele afogaria a letra,
dissolveria a tinta,
liquefaria rima e metáfora.
.
Andou, cirandou : mas onde quer
que corresse um fio de água
fluía junto um nome
como se toda a água nascesse da palavra.
.
Deu volta ao mundo,
chegou onde não havia mais mundo :
em nenhum lado
figurava o inominado riachinho.
.
Cansado,
regressou à sua aldeia
e reincidiu na sua inicial angústia.
Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,
ele sentou o seu desespero
e decepou os cadernos,
desmembrou a escrita
e afogou os papéis
até que deixaram de respirar.
.
Chegou-se um peixe
e, de um golpe, comeu um verso.
No seguinte instante,
lhe cresceram asas
e o peixe soltou um voo de garça
para ganhar os vastos céus.
.
Dos papéis que restavam em suas mãos
emergiu um braço de mulher
que, em dissolvente carícia,
por sonhos o fez viajar.
.
Nessa noite,
de regresso a si mesmo,
o poeta
escreveu derradeiros versos
para matar de vez a poesia.
.
Acedeu, por fim,
à pequena morte do sono,
desconhecendo
que, mesmo adormecido,
dentro de si
seguia fluindo
o único rio sem nome.

Mia Couto
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A memória longínqua de uma pátria
eterna mas perdida e não sabemos

se é passado ou futuro onde a perdemos.
Sophia de Mello Breyner, Poemas de um livro destruído
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