Astros

Janeiro 27, 2012 - Deixe uma Resposta

Aprendiz de avessos,

colhi lição de quem nada ensina

senão o talento de ser sem querer.

.

A chuva me ensinou telhados

e anoiteci nas letras de um livro.

.

A pedra me explicou a morte

no passo antecipado sobre a lápide.

.

Num mundo em que amar

se faz de fúrias pequenas e ódios perenes

em ti derramei meu corpo

para habitar a sombra da água.

.

Não importa quem dentro de mim  respira :

o amor é a noite

iluminando o relâmpago.

E eu não saberei nunca viver

de tanto te sonhar.

.

Como um Sol

que apenas existe

na sua própria ardência,

eu sou só amando.

.

A minha luz é um luar

à procura de uma outra Lua.

Mia Couto

 

Frente a frente

Janeiro 20, 2012 - Deixe uma Resposta

Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis.
E é tão pouco.

Eugénio de Andrade

Da voz das coisas

Janeiro 17, 2012 - Deixe uma Resposta

Só a rajada de vento

dá som lírico

às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas

pelo amor das outras

têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

Não tens perdão

Janeiro 12, 2012 - Deixe uma Resposta
Não me disseste amante, madrugada, pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada, não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

 Rosa Lobato de Faria

O teu silêncio

Janeiro 7, 2012 - 2 Respostas

O teu silêncio oculta as mentiras, histórias, que gostarias de contar-me.
Nele guardas as verdades, como jóias.

O teu silêncio oculta o amor que querias abraçar, até ao desespero .
Nele encerras as tuas angústias e lágrimas.

O teu silêncio oculta o caos da paixão.
Nele escondes as chamas que te devoram.

O teu silêncio oculta a verdade, até de ti próprio.
E cais num precipício sem fim…

Luísa L.

Não importa…

Dezembro 31, 2011 - 2 Respostas

Não importa onde você parou…

 Em que momento da vida você cansou…

O que importa é que sempre é possível recomeçar. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…

É renovar as esperanças na vida e, o mais importante… Acreditar em você de novo.

Sofreu muito neste período? Foi aprendizado…

Chorou muito? Foi limpeza da alma…

Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia…

Sentiu-se só diversas vezes? É porque fechaste a porta até para os anjos…

Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora…

Onde você quer chegar? Ir alto? Sonhe alto… Queira o melhor do melhor…

Se pensarmos pequeno… Coisas pequenas teremos…

Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor… O melhor vai se instalar em nossa vida.

Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.

Carlos Drummond de Andrade

Para além da curva da estrada

Dezembro 26, 2011 - Deixe uma Resposta

Para além da curva da estrada

talvez haja um poço, e talvez um castelo,

talvez seja apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

só olho para a estrada antes da curva,

porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

e para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui só há a estrada antes da curva, e antes da curva

há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro

Soneto

Dezembro 21, 2011 - Deixe uma Resposta

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que me não cale

até que o mundo funda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor prescruta,

maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

A condenação

Dezembro 16, 2011 - Uma resposta

Cansado da poesia,

o poeta levou os seus poemas

para junto de um rio.

.

Queria rasgar os versos

um por um,

dilacerar a palavra,

truncar a ideia,

desfibrar o coração.

.

Para o fim da poesia,

procurou um rio que não tivesse nome.

Teria que ser assim :

junto a um  rio sem nome.

.

Nele afogaria a letra,

dissolveria a tinta,

liquefaria rima e metáfora.

.

Andou, cirandou : mas onde quer

que corresse um fio de água

fluía junto um nome

como se toda a água nascesse da palavra.

.

Deu volta ao mundo,

chegou onde não havia mais mundo :

em nenhum lado

figurava o inominado riachinho.

.

Cansado,

regressou à sua aldeia

e reincidiu na sua inicial angústia.

Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,

ele sentou o seu desespero

e decepou os cadernos,

desmembrou a escrita

e afogou os papéis

até que deixaram de respirar.

.

Chegou-se um peixe

e, de um golpe, comeu um verso.

No seguinte instante,

lhe cresceram asas

e o peixe soltou um voo de garça

para ganhar os vastos céus.

.

Dos papéis que restavam em suas mãos

emergiu um braço de mulher

que, em dissolvente carícia,

por sonhos o fez viajar.

.

Nessa noite,

de regresso a si mesmo,

o poeta

escreveu derradeiros versos

para matar de vez a poesia.

.

Acedeu, por fim,

à pequena morte do sono,

desconhecendo

que, mesmo adormecido,

dentro de si

seguia fluindo

o único rio sem nome.

Mia Couto

Memória

Dezembro 11, 2011 - Deixe uma Resposta

A memória longínqua de uma pátria
eterna mas perdida e não sabemos

se é passado ou futuro onde a perdemos.

Sophia de Mello Breyner, Poemas de um livro destruído

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