Difícil é…

Novembro 9, 2009 - Leave a Response

É fácil trocar as palavras,

difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,

difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,

difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,

difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,

difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro de outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrém é outro universo

com que não há comunicação possível,

com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

senão da nossa;

a dos outros são olhares,

são gestos, são palavras,

com a suposição

de qualquer semelhança no fundo.

fernpessoa1

Talvez

Novembro 3, 2009 - 2 Responses

coracao20

Ah! Se eu pudesse um dia adivinhar

aquilo que eu não penso e que Ela pensa,

talvez eu conseguisse a recompensa

das horas que hei passado a soluçar!

Talvez aquele pranto de criança,

que eu verti sobre as cinzas do meu lar,

conseguisse alcançar o que Ela alcança

quando, junto de mim, fica a chorar!

Talvez pudesse um dia transformar

aqueles sonhos lindos que eu sonhei

noutro desvairo, noutra febre intensa!

Ah! Se eu pudesse um dia adivinhar

aquilo que Ela sabe e eu não sei,

aquilo que eu não penso e que Ela pensa!…

Abílio Mesquita

Cinzas-XXIII

Outubro 30, 2009 - Leave a Response

Hoje para mim  o Sonho e a Realidade

confundem-se no mesmo fel lascivo

de subterrâneo sujo…

Mentira?… Verdade?…

Sei lá se sonho ou vivo!

( Fujo.)

angelalejandra

José Gomes Ferreira

E por vezes

Outubro 26, 2009 - One Response

asruasdopensamento

E por vezes as noites duram meses.

E por vezes os meses oceanos.

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses

o que a vida nos fez em muitos anos.

E por vezes fingimos que lembramos.

E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos,

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos.

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão Ferreira

Da maneira mais simples

Outubro 20, 2009 - Leave a Response

fogo

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples :

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade

A minha morte

Outubro 16, 2009 - Leave a Response

Eu quero, quando morrer, ser enterrada

ao pé do oceano ingénuo e manso,

que reze à meia-noite, em voz magoada

as orações finais do meu descanso.

Há-de embalar-me o berço derradeiro,

o mar amigo e bom para eu dormir !

Velei na vida o meu viver inteiro,

e nunca mais tive um sonho a que sorrir !

E tu hás-de lá ir… bem sei que vais…

E eu do brando sono hei-de acordar

para teus olhos ver uma vez mais !

E a lua há-de dizer-me, voz mansinha:

- Ai, não te assustes… dorme…foi o mar

que gemeu… não foi nada…´stá quietinha…

mar e pedras

Florbela Espanca

Autopsicografia

Outubro 12, 2009 - Leave a Response

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

na dor lida sentem bem,

não as duas que ele teve,

mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda

gira, a entreter a razão,

esse comboio de corda

que se chama o coração.

7799lagrima1

Fernando Pessoa

A vida

Outubro 6, 2009 - Leave a Response

O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim :

esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

medo1

O que ela quer da gente é coragem…

Guimarães Rosa

Poema sem esperança

Outubro 1, 2009 - Leave a Response

retrovisor

Toda a esperança que tive a dividi

por quantos a quiseram receber.

Deles espero agora que a devolvam

com novo rosto e acrescentando juro.

A esperança era fingida, toda feita

de conscientes manhas e de enganos,

tão bem arquitectada que passava

por sincera, vivida, verdadeira.

Era uma esperança imposta, necessária

para as voltas dos dias e das noites,

sem roupagens, sem véus, sem adereços

como na estatuária se apresenta.

Uma esperança sem esperança, alimentada

a soro e drogas no hospital das letras:

no escuro, ensimesmada como um feto;

na luz, extravasada como adulto.

Transferindo-me a outros me recolho

e me fico, de ouvidos apurados,

num solitário andar entre automóveis

nas poluídas ruas da cidade.

António Gedeão

Dor

Setembro 26, 2009 - Leave a Response

brisa_2_thumb3

Não penso mais em nós. Não vale a pena,

como dizes, tentar compreender

as voltas do destino, a serena

e incalculável força do viver.

Deixei-me arrastar por um vento forte

que me levou a mares imaginários.

Deixei-me envolver, teci cenários,

um mundo inteiro condenado à morte.

É importante sonhar, mas é preciso

manter a mente sã, sentir o aviso,

a voz gritante da realidade.

O que temos não foge, o que queremos

é difícil de obter, sem que aceitemos

cortes fundos, que doem de verdade…

Diana Sá