Archive for Maio, 2008

Da transparência
Maio 30, 2008

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência

no fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios

mas sufocado sonho

e não sabemos bem que coisa são os sonhos

condutores silenciosos canto surdo

que um dia subitamente emergem

no grande pátio liso dos desastres

.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

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Arte poética com melancolia
Maio 26, 2008

É verdade que as palavras não nascem

da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;

quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem

 o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,

e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas,

 estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me

 das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,

de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e

 vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços

 a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia?

É então que surges : o teu corpo, que se confunde com o das

palavras que te descrevem, hesita numa das entradas

do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe ; digo o teu nome

   com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra

portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens

inúteis que me separaram de ti.

caos

 Nuno Júdice

Urgência
Maio 23, 2008

Urge encontrar a saída.

Urge encontrar a saída da máquina.

Urge encontrar a saída da máquina do quotidiano.

Pelo menos aos domingos.

Pelo menos quando estou contigo.

E  depositar em ti, ou nos domingos,

o excesso de mim que ficou do quotidiano.

Repito: urge encontrar a saída.

Urge encontrar a saída da máquina do quotidiano.

 Luís Moniz Pereira

Confiança
Maio 15, 2008

 

Meta, a gente busca.

Caminho, a gente acha.

Desafio, a gante enfrenta.

Vida, a gente inventa.

Saudade, a gente mata.

Sonho, a gente realiza.

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Autor desconhecido

As poucas palavras
Maio 9, 2008

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.

Só isso : o céu azul, a sombra lisa,

o livro aberto.

E algumas palavras. Poucas,

ditas como por acaso.

.

Eram contudo palavras de amor.

Não propriamente ditas,

antes adivinhadas. Ou só pressentidas.

Como folhas verdes de passagem.

Um verde, digamos, brilhante,

de laranjeiras.

.

Foi como se de repente chovesse :

as folhas, quero dizer, as palavras

brilharam. Não que fossem ditas

mas eram de amor, embora só adivinhadas.

Por isso brilhavam. Como folhas

molhadas.

folhas

 Eugénio de Andrade

Vive
Maio 6, 2008

Não faças de ti

um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível, presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

sem dizerem que a esperam,

sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

sem te falarem.

Sem lhes falares.

 Cecília Meireles

Também este crepúsculo
Maio 4, 2008

Também este crepúsculo nós perdemos.

Ninguém nos viu hoje à tarde, de mãos dadas

enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela

a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda

acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada

por essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então ?

Entre que gente ?

Dizendo que palavras ?

Porque vem até mim todo o amor de repente

quando me sinto triste, e te sinto tão longe ?

Caíu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,

e como um cão ferido rodou a minha copa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde

para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

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 Pablo Neruda

Tantas perguntas
Maio 2, 2008

Tantas perguntas

e nenhuma resposta.

Somente a lua sangrando violada

nas montanhas de Agosto.

Só os olhos secretos das panteras,

o voo dos milhafres.

Tanta pergunta.

E já vem vindo

o tropel dos cavalos selvagens.

Confundo cascos, crinas, corações a galope.

Inunda-me o perfume estonteante dos lírios.

Acaricio o gato, o grão,

as pétalas das rosas.

E nenhuma resposta.

Interrogo. Interpelo. Pergunto.

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Rosa Lobato de Faria