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Arte poética com melancolia
Maio 26, 2008

É verdade que as palavras não nascem

da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;

quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem

 o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,

e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas,

 estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me

 das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,

de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e

 vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços

 a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia?

É então que surges : o teu corpo, que se confunde com o das

palavras que te descrevem, hesita numa das entradas

do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe ; digo o teu nome

   com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra

portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens

inúteis que me separaram de ti.

caos

 Nuno Júdice