Archive for Junho, 2008

Autor
Junho 30, 2008

O autor deve dizer o menos possível da sua obra, pois, de outra forma, não valerá a pena escrever romances, que são engrenagens destinadas a gerar interpretações.

É a descoberta de pistas em que ele nem sequer pensou, sugeridas pelos leitores, que faz de cada obra um fascinante universo em perpétua reformulação.

Como a vida de cada um.

  Fernando Namora

Sangue
Junho 28, 2008

Versos

escrevem-se

depois de ter sofrido.

O coração

dita-os apressadamente.

E  a mão tremente

quer fixar no papel os sons dispersos…

.

É  só com sangue que se escrevem versos.

coracao

 Saul Dias

Amor
Junho 25, 2008

Aqueles olhos aproximam-se e passam.

Perplexos, cheios de funda luz,

doces e acerados, dominam-me.

Quem os diria tão ousados ?

Tão humildes e tão imperiosos,

tão obstinados !

Como estão próximos os nossos ombros !

Defrontam-se e furtam-se,

negam toda a sua coragem.

De vez em quando,

esta minha mão,

que é uma espada e não defende nada,

move-se na órbita daqueles olhos,

fere-lhes a rota curta,

poderosa e plácida.

Amor, tão chão de amor,

que sensível és …

Sensível e violento, apaixonado.

Tão carregado de desejos !

Acalmas e redobras

e de ti renasces a toda a hora,

cordeiro que se encabrita e enfurece

e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna !

Ou desespero, ou medo.

Fuga doida à posse, à dádiva.

Tanto bater de asas frementes,

tanto grito e pena perdida …

E as tréguas, amor cobarde ?

Cada vez mais longe,

mais longe e apetecidas.

Ó amor, amor,

que faremos nós de ti,

e tu de nós ?

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 Irene Lisboa

Quando as palavras
Junho 23, 2008

Quando as palavras abrem canais de transparência

entre as ilhas fechadas de azedume ou desespero

da nossa solidão

uma alegria sempre nova

escancara as portas todas para o sol

e  eu volto logo inteiro com cega impaciência

para onde jurei mil vezes nunca mais voltar.

.

Deslumbra-se o coração

aberto em girassol.

.

É  como respirar.

  Mário  Dionísio

Uma voz na pedra
Junho 19, 2008

Não sei se respondo ou se pergunto.

Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.

Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.

A minha ebriedade é a da sede e a da chama.

Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.

O que amo não sei. Amo em total abandono.

Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.

Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.

Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.

Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

 António Ramos Rosa

Felicidade
Junho 16, 2008

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

.

Tinha feições de menino inconsolável.

Um menino impúbere

ainda sem amor para ninguém,

gostando apenas de demorar as mãos

ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

.

E, como menino que era,

achava um grande mistério no seu próprio nome.

criança

 Jorge de Sena

Flor
Junho 4, 2008

Uma flor apenas

e vermelha.

Tinha o sol nos cabelos

e lama nas raizes.

Alguém a plantara

numa terra velha roída de varizes.

.

E nem assim finou.

.

Ervas sugam-lhe as veias

e as rajadas das areias

crestam-lhe a carne.

.

E nem assim murchou.

.

É uma flor

e o sol fê-la vermelha.

Isso bastou.

 Fernando Namora

Desencontro
Junho 2, 2008

Só quem procura sabe como há dias

de imensa paz deserta; pelas ruas

a luz perpassa dividida em duas :

a luz que pousa nas paredes frias,

.

outra que oscila desenhando estrias

nos corpos ascendentes como luas

suspensas, vagas, deslizantes, nuas,

alheias, recortadas e sombrias.

.

E  nada coexiste. Nenhum gesto

a um gesto corresponde ; olhar nenhum

perfura a placidez, como de incesto,

.

de procurar em vão ; em vão desponta

a solidão sem fim, sem nome algum –

– que mesmo o que se encontra não se encontra.

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 Jorge de Sena