Archive for Agosto, 2008

Profecia
Agosto 16, 2008

Um dia, nós  havemos de encontrar-nos.

Quando? Não sei. Onde? Não importa.

A  mágoa da ausência estará morta.

Os  frutos do silêncio estarão prontos.

tempo-do-amor

 Diana Sá

A casa do tempo perdido
Agosto 9, 2008

Bati no portão da casa do tempo perdido, ninguém atendeu.

Bati segunda vez e mais outra.

Resposta nenhuma.

A casa do tempo perdido está coberta de hera

pela metade; a outra metade são cinzas.

Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando

pela dor de chamar e não ser escutado.

Simplesmente bater. O eco devolve

minha ânsia de enteabrir esses paços gelados.

A noite e o dia se confundem no esperar,

no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.

É  o casarão vazio e condenado.

ruínas

 Carlos Drummond de Andrade

Poema sobre a recusa
Agosto 7, 2008

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

.

nem na polpa dos meus

dedos

se ter formado o afago

.

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

.

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva ?

.

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

.

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.

pedras1

 Maria Teresa Horta

Gaveta dos papéis
Agosto 4, 2008

Não há motivo para te importunar a meio da noite,

como não há leite no frigorífico

nem um limite traçado para a solidão doméstica.

Nada desaparece antes de ser dito,

tudo desaparece antes de ser dito,

e  tu queres dormir descansada,

tens direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema,

esse não é motivo para te importunar.

Eu escrevo muitos poemas,

e tu trabalhas de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa.

Não tenho o direito de te telefonar para te dizer isso,

apesar dessa evidência me matar agora.

E  morro. Mas não morro.

Se morresse, perguntavas:

por que não me telefonaste?

Se telefonasse, perguntavas:

sabes que horas são?

Ou não atendias.

E  eu ficava aqui,

com a noite ainda mais comprida,

com a insónia,

com as palavras

a despegarem-se dos pesadelos.

 José Luís Peixoto