Archive for Setembro, 2008

Da maneira mais simples
Setembro 30, 2008

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples :

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 Eugénio de Andrade

Silenciosamente…
Setembro 26, 2008

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Quanta coisa…
Setembro 24, 2008

Quanta coisa quis fazer

e  quanta coisa não fiz

de um lado Deus permitiu

de outro lado Deus não quis

.

ou  então não percebi

o  que me dizia Deus

desatento a seus projectos

por só me ocupar dos meus

.

ou  nem isto nem aquilo

rodou assim o destino

puxem a corda que queiram

e  a gosto badale o sino

.

Agostinho da Silva

Diz-me o teu nome
Setembro 22, 2008

Diz-me o teu nome – agora, que perdi

quase tudo, um nome pode ser o princípio

de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

.

com os teus dedos – como as poeiras se

escrevem, irrequietas, nos caminhos e os

lobos mancham o lençol de neve com os

sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

.

como a levares as palavras de um livro para

dentro de outro – assim conquista o vento

o tímpano das grutas e entra o bafo do verão

na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

.

nos meus lábios devagar : é um poema

açucarado que se derrete na boca e arde

como a primeira menta da infância.

.

Ninguém esquece um corpo que teve

nos braços um segundo – um nome sim.

Letting go

 M.ª Rosário Pedreira

Ver claro
Setembro 18, 2008

Toda a poesia é luminosa, até

a  mais obscura.

O  leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E  o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se  regressar

outra vez e outra vez

e  outra vez

a  essas  sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

 Eugénio de Andrade

Coisas simples
Setembro 10, 2008

Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos.

O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida.

Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso : um desvio no olhar ; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.

 Nuno Júdice

Dez minutos
Setembro 2, 2008

Tenho dez minutos

para dizer que te amo

o tempo de ainda ouvir um piano de antigamente

será minha fuga antes das dez

embalado por um som que só a ti me leva

quero que cada momento seja especial

sei que mais tarde quando me leres

vais saber que esta contagem decrescente te pertence

terás dez razões para te interrogares

porque escrevo em carta aberta

mas terás outras tantas

para te convenceres que

por estares longe mais te amo

quando tu estás por perto

não me concentro em ti

sou desviado pelo teu olhar único

tua anca teus cabelos

tuas dores e sorrisos

tuas rugas teus vestidos

tua tristeza

já não tenho dez minutos

mas dez anos para te amar

dizem as finas estatísticas

 Carlos Peres Feio