Archive for Novembro, 2008

Movimentos suspensos
Novembro 27, 2008

Continuam suspensos os corpos.

Assim haverá o silêncio das almas

pelo sempre dos nossos dias.

.

A paisagem muda sem nós,

a lua vai sendo mais conhecida,

o fundo do mar mais explorado,

a vida vivida.

.

Sofro.

.

Tu não sabes nem saberás.

passado11

 N. Reimão

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Soneto de Separação
Novembro 24, 2008

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De repente, do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma,

e das bocas unidas fez-se a espuma,

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente, da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama,

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente,

fez-se de triste o que se fez amante,

e de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se de amigo próximo o distante,

fez-se da vida uma aventura errante,

de repente, não mais que de repente.

 

 Vinicius de Morais

Contigo
Novembro 20, 2008

Estou só e luto com os meus fantasmas.

Tu continuas a esconder-te, não surges claramente,

não queres comprometer-te.

Alimentas os meus sonhos e desapareces.

De que tens medo? Eu não te peço nada,

a  não ser uma vontade firme

de resolver a dois o que nos preocupa.

Quero fazer parte do teu mundo,

de um modo real e permanente,

partilhar contigo a tua vida

e  a minha.

É  pedir-te muito?

Se não podemos estar juntos,

deixa-nos pelo menos

pôr em comum o que nos preocupa.

Nada é fácil para nós neste momento,

mas é preciso, sobretudo,

darmo-nos as mãos …

maos-341

Diana Sá

Realidade
Novembro 14, 2008

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Em ti, o meu olhar fez-se alvorada

e  a minha voz fez-se gorjeio de ninho…

E  a minha rubra boca apaixonada

teve a frescura pálida do linho…

.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho

fulvo de Espanha, em taça cinzelada…

E  a minha cabeleira desatada

pôs a teus pés a  sombra dum caminho…

.

Minhas pálpebras são cor de verbena,

eu tenho os olhos garços, sou morena,

e  para te encontrar foi que eu nasci…

.

Tens sido vida fora o meu desejo.

E  agora que te falo, que te vejo,

não sei se te encontrei… se te perdi…

.

 Florbela Espanca

Segue o teu destino
Novembro 11, 2008

Segue o teu destino,

rega as tuas plantas,

ama as tuas rosas.

O  resto é sombra

das árvores alheias.

A  realidade

sempre é mais ou menosouro-de-outono

do que nós queremos.

Só nós somos sempre

iguais a nós próprios.

Suave é viver

só.

Grande e nobre é sempre

viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

como ex-voto aos deuses.

Vê de longe

a  vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

dizer-te. A resposta

está além dos deuses.

Mas serenamente

imita o Olimpo

no teu coração.

Os deuses são deuses

porque não se pensam.

.

 Ricardo Reis

Pedro, lembrando Inês
Novembro 9, 2008

Em quem pensar, agora, senão em ti ? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas,  e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade  que te podia

dizer: “Como é mais fácil deixarmos que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios ? Mas ensinaste-me

a sermos dois, e a ser contigo aquilo que sou,

até  sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor :

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua

voz  que abre as fontes a todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de  irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti, para te ver chegar com

a  surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a  mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.abraco-lapis1

 Nuno Júdice

Sonho
Novembro 5, 2008

O amor é mesmo isto; olhamos para o objecto amado no pedestal onde nós o colocámos, como um sonho impossível, uma nuvem que quase se consegue tocar, uma imagem à qual queremos ascender, uma miragem na qual desejamos mergulhar para sempre. Apaixonamo-nos para nos podermos elevar do mundo como ele é, dos seus cinismos e da sua brutalidade inevitável.

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 Margarida Rebelo Pinto  em  O Diário da nossa Paixão

Quem morre
Novembro 4, 2008

Morre lentamente quem não viaja,

quem não lê, quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio,

quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias os mesmos trajetos,

quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor

ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,

quem prefere o preto sobre o branco

e os pontos sobre os  “is”

em detrimento de um redemoinho de emoções,

justamente as que resgatam o brilho dos olhos,

sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa

quando está infeliz com o seu trabalho,

seu amor, quem não arrisca o certo pelo incerto

para ir atrás de um sonho, quem não se permite

pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se

da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,

não pergunta sobre um assunto que desconhece

ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,

recordando sempre que estar vivo exige um esforço

muito maior que o simples fato de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.

.

 Pablo Neruda

Não é fácil…
Novembro 2, 2008

É bom ler-te,

imaginar o que queres dizer

nas entrelinhas dos teus versos.

Mas não sei se és tu

ou um anjo por ti que me escreve…

Gostas de te envolver em mistério,

de não abrir o jogo.

E eu continuo na incerteza…

Não sabes como me interrompes o fluir do sono,

há já tantos dias…

Não é fácil tentar compreender

o que tu me queres esconder…

Diana Sá