Archive for Janeiro, 2009

Soneto quase mudo
Janeiro 29, 2009

Há o silêncio, às vezes, entre nós,

e  é um silêncio denso, ou uma fala

críptica, uma linguagem que abdica

do som, para ser só a voz da alma…

.

Há súbitas catarses de palavras

em torrente, cachoeiras de espuma

efervescente, ou talvez a timidez

dos gestos reprimidos ou represos.

.

Há os olhos que dizem sem dizer,

há o fluido subtil de quem se entende

mais longe do que a vida nos permite.

sentir

E  há a confiança na ausência,

Há segredos sabidos sem saber,

manhãs  comuns em cada amanhecer.

.

 Rui Polónio Sampaio

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Depoimento
Janeiro 27, 2009

De  seguro

posso apenas dizer que havia um muro

e  que foi contra ele que arremeti

a vida inteira.

Não, nunca o contornei.

Nunca tentei

ultrapassá-lo de qualquer maneira.

………….

A honra era lutar

sem esperança de vencer.

E  lutei ferozmente noite e dia,

apesar de saber

que quanto mais lutava mais perdia

e  mais funda sentia

a dor de me perder.

castelo

 Miguel Torga

As palavras
Janeiro 22, 2009

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho  apenas.

………

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam :

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

………

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e  são a noite.

E  mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

………

Quem as escuta ? Quem

as  recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras ?

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 Eugénio de Andrade

A mim, na minha mão…
Janeiro 19, 2009

A mim, na minha mão, como o pássaro pousa

inocente e sem medo, amor pousou de leve

sendo que vinha saltitando em espasmos lentos

de  que se acrescentava a cada passo em carne.

Mas veio e se pousou malicioso e tenso,

tão desbragado e audaz no se entregar a mim

que a minha mão estendida ansiosa estremecia

de ver como sorria aquele amor em voo.

Pousou assim de leve  em minha mão aberta,

um pássaro tranquilo a mim se dando inteiro.

Um instante apenas foi. Silente não falou,

e  logo se acabou deixando só as lembranças.

Que triste este viver de só falar mais tarde !

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 Jorge de Sena

Meu rosto em tuas mãos
Janeiro 15, 2009

Quando me olhas,

quando a meu lado, imóvel, sentada, suave te inclinas;

quando estendes as mãos, suavíssima, porque queres,

porque querias agora tocar, sim, a minha cara,

tuas mãos, como de sonho,

quase como uma sombra me tocam.

Olho teu rosto. Um sopro de ternura lançou

como que uma luz sobre as tuas feições.

Que formosa pareces. Mais menina pareces. E olhas-me.

E  estás a sorrir-me.

Que suplicas quando alongando as mãos, muda, me tocas?

Sinto o fervor da sombra, do fumo que chega, subtil.

Que formosura, alma minha. A casa, recolhida, calma, repousa.

E  tu estás calada,

e eu sinto o meu rosto, suspenso, doce, em teus dedos.

Estás a suplicar. Tornas-te menina. Uma menina suplica.

Pedes. Quebra-se uma voz que não existe e pede.

Amor demorado. Amor nos dedos que pulsa sem ruído,

sem vozes. E eu fito-te nos olhos, e olho e oiço-te.

Oiço a alma quietíssima, menina, que escutada canta.

Amor como um beijo. Amor nos dedos, que escuto,

fechado em tuas mãos.

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 Vicente Aleixandre

Eis-me
Janeiro 13, 2009

Eis-me

tendo-me despido de todos os meus mantos

tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

para ficar sozinha ante o silêncio

ante o silêncio e o esplendor da tua face

…………

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

e o meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

e o teu encontro

são planícies e planícies de silêncio

…………

Escura é a noite

escura e transparente

mas o teu rosto está para além do tempo opaco

e eu não habito os jardins do teu silêncio

porque tu és de todos os ausentes o ausente

solidao

 Sophia de Mello Breyner Andersen

Inquietação
Janeiro 9, 2009

A Vida põe-nos muitos obstáculos

no nosso caminho.

De  todos  os  lados…

Temos  de  saber reagir,

de  confiar no Futuro,

de  abrir o coração

ao  Desconhecido.

janela

Desculpa a minha inquietação…

Há alturas em que nos sentimos

tão frágeis,

que a dúvida surge

em cada canto…

Eu preferia
Janeiro 8, 2009

Sei que a ternura

não é coisa que se peça,

e  dar-se não significa

que alguém a queira ou mereça.

Estas verdades,

que são do senso comum,

não me dão conformação

nem sentimento nenhum

de haver força e dignidade

na minha sabedoria…

Eu preferia

– sinceramente, preferia ! –

que, contra as leis recolhidas

no que ficou dos destroços

de  outras vidas,

tu me desses a ternura que te peço;

ou que,

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por fim, reparasses

que a mereço.

Reinaldo Ferreira

Vai-te, Poesia
Janeiro 3, 2009

Deixa-me ver a vida

exacta e intolerável

neste planeta feito de carne humana a chorar

onde um anjo me arrasta todas as noites

para casa pelos cabelos

com bandeiras de lume nos olhos,

para fabricar sonhos

carregados de dinamite de lágrimas.

.

Vai-te, Poesia .

Não quero cantar.

Quero gritar!

.

José Gomes Ferreira