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Meu rosto em tuas mãos
Janeiro 15, 2009

Quando me olhas,

quando a meu lado, imóvel, sentada, suave te inclinas;

quando estendes as mãos, suavíssima, porque queres,

porque querias agora tocar, sim, a minha cara,

tuas mãos, como de sonho,

quase como uma sombra me tocam.

Olho teu rosto. Um sopro de ternura lançou

como que uma luz sobre as tuas feições.

Que formosa pareces. Mais menina pareces. E olhas-me.

E  estás a sorrir-me.

Que suplicas quando alongando as mãos, muda, me tocas?

Sinto o fervor da sombra, do fumo que chega, subtil.

Que formosura, alma minha. A casa, recolhida, calma, repousa.

E  tu estás calada,

e eu sinto o meu rosto, suspenso, doce, em teus dedos.

Estás a suplicar. Tornas-te menina. Uma menina suplica.

Pedes. Quebra-se uma voz que não existe e pede.

Amor demorado. Amor nos dedos que pulsa sem ruído,

sem vozes. E eu fito-te nos olhos, e olho e oiço-te.

Oiço a alma quietíssima, menina, que escutada canta.

Amor como um beijo. Amor nos dedos, que escuto,

fechado em tuas mãos.

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 Vicente Aleixandre