Archive for Maio, 2009

Talento
Maio 29, 2009

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente… e não a gente a ele.

poeta_escreve

Mário Quintana

Reencontro
Maio 25, 2009

Quando estiveste aqui, amor, os dias

foram sol, foram sonho, foram vida.

Vestiste-os de luz. Só tu podias

e  levaste-me à terra prometida.

Nos teus braços, todas as fantasias

acontecem, eu sinto-me querida.

Solto o meu coração. Não conhecias

a fome de amor que trago escondida.

Partiste. Agora um mundo nos separa.

É  difícil viver longe de ti,

sem ouvir a tua voz, sem te beijar.

Invento para nós a manhã clara

do reencontro. Sei o que perdi

quando te foste, amor, e sei esperar.

saudades

Diana Sá

Obstáculos
Maio 20, 2009

Vou caminhando por uma vereda.

Deixo que os meus pés me levem.

Os meus olhos pousam-se nas árvores, nos pássaros, nas pedras.

No horizonte recorta-se a silhueta de uma cidade.

Fixo nela o olhar para a distinguir bem.

Sinto que a cidade me atrai. Sem saber como, dou-me conta que nesta cidade posso encontrar tudo o que desejo.

Todas as minhas metas, os meus objectivos e os meus logros.

As minhas ambições e os meus sonhos estão nesta cidade.

Aquilo que eu quero conseguir, aquilo de que necessito, aquilo que eu mais gostaria de ser, aquilo a que aspiro, aquilo que tento, aquilo pelo que trabalho, aquilo que sempre ambicionei, aquilo que seria o maior dos meus êxitos.

Imagino que tudo está nessa cidade.

Sem duvidar, começo a caminhar até ela.

Pouco depois de começar a andar, a vereda põe-se a subir pela encosta acima.

Canso-me um pouco, mas não importa.

Sigo.

Avisto uma sombra negra, mais adiante, no caminho.

Ao aproximar-me, vejo que uma enorme vala impede a minha passagem.

Receio… Duvido.

Desgosta-me não conseguir alcançar a minha meta facilmente.

De todas as maneiras, decido saltar a vala.

Retrocedo, tomo impulso e salto…

Consigo passá-la.

Recomponho-me e continuo a caminhar.

Uns metros mais adiante, aparece outra vala.

Volto a tomar impulso e também a salto.

Corro até à cidade: o caminho parece desimpedido.

Surpreende-me um abismo que detém o meu caminho.

Detenho-me.

É  impossível saltá-lo.

Vejo que num dos lados há tábuas, pregos e ferramentas.

Dou-me conta de que estão ali para construir uma ponte.

Nunca fui habilidoso com as minhas mãos…

… penso em renunciar.

Olho para a meta que desejo… e resisto.

Começo a construir a ponte.

Passam horas, dias, meses.

A ponte está feita.

Emocionado, atravesso-a

e  ao chegar ao outro lado… descubro o muro.

Um gigantesco muro frio e húmido rodeia a cidade dos meus sonhos…

Sinto-me abatido…

Procuro a maneira de o evitar.

Não há forma.

Tenho de o escalar.

A cidade está tão perto…

Não deixarei que o muro impeça a minha passagem.

Proponho-me trepar.

Descanso uns minutos e tomo ar…

Rapidamente vejo,

de um lado do caminho,

uma criança que olha para mim como se me conhecesse.

Sorri-me com cumplicidade. Faz-me vir à memória como eu próprio era… quando criança.

Talvez por isso me atrevo a expressar em voz alta a minha queixa.

– Porquê tantos obstáculos entre o meu objectivo e eu?

A criança encolhe os ombros e responde-me.

– Porque mo perguntas a mim ?

Os obstáculos não existiam antes de tu chegares…

Foste tu que trouxeste os obstáculos.

Jorge Bucay em  contos para pensar

Os silêncios
Maio 12, 2009

Não entendo os silêncios

que tu fazes

nem aquilo que espreitas

só comigo.

Se escondes a imagem

e a palavra

e  adivinhas aquilo

que não digo.

casa

Se te calas

eu oiço e eu invento.

Se tu foges

eu sei não te persigo.

Estendo-te as mãos,

dou-te a minha alma

e  continuo a querer

ficar contigo.

 

Maria Teresa Horta

Balada de sempre
Maio 8, 2009

Espero a tua vinda,

a tua vinda,

em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite

inventando crescentes e luares.

Espero o momento da chegada

com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.

Rasgarás nuvens, estradas,

abrindo clareiras

nas sedes e nas ciladas.

Saltarás por cima dos mares,

de planícies e relevos

– ânsia alada

no meu desejo imaginada.

sem-titulo3

azul

Mas…

enquanto deixo a janela aberta

para entrares,

o mar,

aí além,

lambe-me os braços hirtos, braços verdes,

algas de sonho,

… e desenha ironias na areia molhada.

 

Fernando Namora

 

Chove
Maio 4, 2009

Nesta tarde chove, e  chove pura a

tua imagem. Na minha recordação abre-se o dia.

Entraste.

Não oiço. A memória dá-me só a tua imagem.

Só o teu beijo ou chuva cai em recordação.

Chove a tua voz, e  chove o beijo triste,

o  fundo beijo,

beijo molhado em chuva. O  lábio é húmido.

Húmido de recordação o beijo chora

nuns céus cinzentos

delicados.

Chove o teu amor, molha a minha memória,

e  cai  e  cai.  O  beijo

cai ao fundo. E  cinzenta ainda cai

a  chuva.

chuva4

Vicente Aleixandre