Archive for Junho, 2009

Soneto
Junho 29, 2009

relacoes-como-superar-amor-nao-correspondido-460x345-br11Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei ;

amor exacto, vivo, desenhado

a fogo, onde eu próprio me queimei ;

amor que me destrói e destruiu

a fria arquitectura desta tarde

– só a ti canto, que nem eu já sei

outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não  há razão

para que o frio que me queima os olhos

me trespasse e me suba ao coração ;

só a ti canto, que não há desastre

de onde não possa ainda erguer-me

para encontrar de novo a tua face.

 

Eugénio de Andrade

A concha
Junho 25, 2009

A minha casa é concha. Como os bichos,

segreguei-a de mim com paciência:

fechada de marés, a sonhos e a lixos,

o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O  orgulho carregado de inocência

se às vezes dá uma varanda, vence-a

o sal que os santos esboreou nos nichos.

E  telhados de vidro e escadarias

frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:

sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

sentado numa pedra da memória.

coraislf4

Vitorino Nemésio

 

O guardador de rebanhos
Junho 23, 2009

fp

” Ó  guardador de rebanhos,

aí, à beira da estrada,

que te diz o vento que passa? “

” Que é vento, e que passa,

e  que já passou antes,

e  que passará depois .

E  a ti , o que te diz? “

Muita coisa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras coisas.

De  memórias e de saudades,

e  de coisas que nunca foram. “

” Nunca ouviste passar o vento.

O  vento só fala do vento.

O  que lhe ouviste foi mentira,

e  a mentira está em ti. “

 

Alberto Caeiro

Compreender
Junho 19, 2009

É triste não compreender.

Mais triste ainda é não obter uma explicação.

Vida, por que és tão complicada?

Quando escondes as tuas cartas,

imagino histórias e histórias de angústia,

entrego-me ao correr da intuição

transformada em pesadelo…

angústia

Não sei o que se passa.

E tu não queres que eu saiba.

Queres que eu continue a mendigar respostas…

 

Diana Sá

Canção de Circunstância
Junho 15, 2009

Canto conforme a circunstância,

circunstância não minha mas dos homens todos.

É noite, estou fechado, é noite,

minha canção acesa sobre o mundo.

Esperança, tu não és fácil.

Amor, tu dóis.

Inquietam-se as palavras no poema

como o pulsar do sangue na garganta.

Noite. Estou fechado, é noite.

Mais do que na paisagem,

anoiteceu

no coração.

Canção, tu dizes

que há qualquer coisa que se chama vida.

Não me contas histórias para eu dormir,

estás acordada,

minha canção acesa

sobre a noite

do mundo.

Manuel Alegre

Manuel Alegre

Natureza
Junho 10, 2009

A formosura desta fresca serra

e a sombra dos verdes castanheiros,

o manso caminhar destes ribeiros,

donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,

o esconder do Sol pelos outeiros,

o recolher dos gados derradeiros,

das nuvens pelo ar a branda guerra ;

Enfim, tudo o que a rara Natureza

com tanta variedade nos oferece

me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e aborrece,

sem ti, perpetuamente estou passando

nas mores alegrias mor tristeza.

camoes-a-cores3

Luís de Camões

Cada dia
Junho 9, 2009

Cada dia é mais evidente que partimos

sem possível regresso no que fomos,

cada dia as horas se despem mais do alimento :

não há saudade nem terror que baste.

Casa à margem

Sophia de Mello Breyner Andresen

Das Unennbare
Junho 3, 2009

Ó  quimera, que passas embalada

na onda dos meus sonhos dolorosos,

e  roças, c´os vestidos vaporosos,

a minha fronte pálida e cansada !

Leva-te o ar da noite sossegada…

Pergunto em vão, com olhos ansiosos,

que nome é que te dão os venturosos

no teu país, ó misteriosa fada !

Mas que destino o meu! e que luz baça

a desta aurora, igual à do sol-posto,

quando só nuvem lívida esvoaça !

Que nem a noite uma ilusão consinta !

que só de longe e em sonhos te pressinta…

E  nem em sonhos possa ver-te o rosto !

noite 2

Antero de Quental