Archive for Agosto, 2009

As mãos dadas
Agosto 31, 2009

Um dia me falaste

e as árvores morriam

Maos-34

galho a galho seco.

Havia flores, recordo.

Havia ruas, ai também recordo.

E escadas

vazias.

Não me falaste, não. Fui eu quem perguntou

beijando-te, tremente, quantos anos tinhas,

e o teu nome.

Não tinhas nome : ou tinhas, mas não teu.

E a tua idade : as tuas mãos nas minhas.

Jorge de Sena

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Com sol e sal eu escrevo…
Agosto 25, 2009

amanhecer

Escrevo no meio de tantas derrocadas,

tantas ruínas, tanto desespero,

mas também tanta esperança renovada,

tantos jovens que, no meio do desencanto,

mantêm a pureza das cascatas,

tantas crianças que são a primavera

que chegará um dia e ficará

no coração da terra, quantas vezes

mutilada, humilhada por aqueles

que trazem a ganância no seu sangue.

Com sol e sal eu escrevo.

E todos juntos vamos transformar,

com tudo o que nós temos de coragem,

este mundo idiota

que envia flores aos mortos

e atira pedradas aos vivos.

 

Sidónio  Muralha

deliciosa visão
Agosto 20, 2009

borboletaapetece-me pintar

tudo quanto me rodeia de palavras

para nunca me sentir sozinho

Sentas-te a meu lado

perfeita nas tuas imperfeições

tu deliciosa visão poética

milagre das solidões vencidas

 

António Paiva

Soneto do amor difícil
Agosto 6, 2009

pacific_ocean_by_barufubeefcake1A praia abandonada recomeça

logo que o mar se vai, a desejá-lo.

É como o nosso amor, somente embalo

enquanto não é mais que uma promessa.

Mas se na praia a onda se espedaça,

há logo nostalgia de uma flor

que ali devia estar para compor

a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos

no silêncio de morte que nos tolhe,

como entre o mar e a praia um longo molhe

de súbito largado à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu

desencanto na curva do teu céu.

 

David Mourão Ferreira

Vida – F.P.
Agosto 3, 2009

Temos, todos que vivemos,

uma vida que é vivida

e outra vida que é pensada,

e a única vida que temos

é essa que é dividida

entre a verdadeira e a errada.

tejo

                                                       Fernando Pessoa