Archive for Setembro, 2009

Dor
Setembro 26, 2009

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Não penso mais em nós. Não vale a pena,

como dizes, tentar compreender

as voltas do destino, a serena

e incalculável força do viver.

Deixei-me arrastar por um vento forte

que me levou a mares imaginários.

Deixei-me envolver, teci cenários,

um mundo inteiro condenado à morte.

É importante sonhar, mas é preciso

manter a mente sã, sentir o aviso,

a voz gritante da realidade.

O que temos não foge, o que queremos

é difícil de obter, sem que aceitemos

cortes fundos, que doem de verdade…

 

Diana Sá

 

Ao anoitecer
Setembro 21, 2009

E ao anoitecer adquires nome de ilha ou vulcão

deixas viver sobre a pele uma criança de lume

e na fria lava da noite ensinas ao corpo

a paciência  o amor  o abandono das palavras

o silêncio

e a difícil arte da melancolia.

anoitecer

Al Berto

Mas galopas
Setembro 16, 2009

A galope,

um cavaleiro atravessava a noite.

Inútil perguntar-lhe

o que levava. Galopava.

À desfilada,

atravessava noites, abismos, cidades.

Não lhe perguntásseis de onde veio,

aonde ia. Galopava.

chama

Furacão

vingador, arcanjo desencadeado,

que resta do que foste? Já não és fogo,

nem vento. És cinza, pó. Mas galopas.

 

Papiniano Carlos


Post – scriptum
Setembro 12, 2009

Não sou daqueles cujos ossos se guardam,

nem sou sequer dos que os vindouros lamentam

não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.

Igualmente não sou dos que serão estandartes

em lutas de sangue ou de palavras,

para uns odiado quanto me amem outros.

Não sou sequer dos que são voz de encanto,

ciciando na penumbra ao jovem solitário,

a beleza vaga que em seus sonhos houver.

Nem serei ao menos consolação dos tristes,

dos humilhados, dos que fervem raivas

de uma vida inteira pouco a pouco traída.

Não, não serei nada do que fica ou serve,

e morrerei, quando morrer, comigo.

Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,

de todos e de si se disfarçando,

curioso, aquel´ que aceita suspeitar

quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.

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Jorge de Sena

Como te enganaste, meu amigo…


Não sei
Setembro 8, 2009

Que faço eu aqui, enquanto espero

que uma andorinha rápida me traga

a resposta dos deuses, que procuro?

Que faço eu aqui, se eles falharem

a minha esperança e me recusarem

a ajuda, o conselho, o abrigo?

Talvez tudo isto seja ilusório,

talvez eu saiba já o que fazer,

mas tenha medo de o assumir…

Talvez esteja já no firmamento

escrita a resposta que procuro,

e eu não saiba ou não queira ver…

estrelas

Diana Sá

Coração sem imagens
Setembro 4, 2009

casa

Deito fora as imagens.

Sem ti, para que me servem

as imagens?

Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direcção

é igualmente passageira

e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos

numa casa deserta,

ao trémulo vigor de todos os teus gestos

invisíveis,

à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve

a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.

As imagens não dão

felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,

e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,

e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens,

assim como posso passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que

isso não seja ser feliz.

 

Raul de Carvalho