Archive for Dezembro, 2009

2010
Dezembro 29, 2009

and you too…

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Estou cansado, é claro…
Dezembro 27, 2009

Estou cansado, é claro,

porque, a certa altura,

a gente tem de estar cansado.

De que estou cansado, não sei :

de nada me serviria sabê-lo,

porque o cansaço fica na mesma.

Uma vontade de sono no corpo,

um desejo de não pensar em nada.

A ferida dói como dói

e não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado

e um pouco sorridente de o cansaço ser só isto.

E, por cima de tudo,

uma transparência lúcida

do entendimento retrospectivo.

E a luxúria única de já não ter esperanças ?

Sou inteligente ; eis tudo.

Tenho visto muito

e entendido muito do que tenho visto.

E há um certo prazer

até no cansaço que isto nos dá.

Que afinal a cabeça sempre serve para alguma coisa.

 

Álvaro de Campos

 

Natal
Dezembro 21, 2009

Diz-me o teu nome
Dezembro 15, 2009

Diz-me o teu nome – agora que perdi

quase tudo, um nome pode ser o princípio

de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos – como as poeiras se

escrevem, irrequietas, nos caminhos, e os

lobos mancham o lençol de neve com os

sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para

dentro de outro – assim conquista o vento

o tímpano das grutas e entra o bafo do verão

na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar : é um poema

açucarado que se derrete na boca e arde

como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve

nos braços um segundo – um nome sim.

 

Maria do Rosário Pedreira

Intimidade
Dezembro 10, 2009

No coração da mina mais secreta,

no interior do fruto mais distante,

na vibração da nota mais discreta,

no búzio mais convolto e ressonante,

na camada mais densa da pintura,

na veia que no corpo mais nos sonde,

na palavra que diga mais brandura,

na raiz que mais desce, mais esconde,

no silêncio mais fundo desta pausa,

em que a vida se fez perenidade,

procuro a tua mão, decifro a causa

de querer e não crer, finalmente, intimidade.

 

José Saramago

Como quero amar-te
Dezembro 6, 2009

Não te vou pôr flores de laranjeira no cabelo,

nem fazer explodir a madrugada dos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente

como se todo o tempo fosse nosso,

como se todo o tempo fosse pouco,

como se nem sequer houvesse tempo.

Joaquim Pessoa

Identidade
Dezembro 3, 2009

Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato

morro

no mundo por que luto

nasço

 

Mia Couto