Archive for Janeiro, 2010

Lua adversa
Janeiro 28, 2010

Tenho fases, como a lua.

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida !

Perdição da vida minha !

Tenho fases de ser tua,

outras de andar sozinha.

Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso !

Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua…)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu.

Cecília  Meireles

Ilusão
Janeiro 25, 2010

Eu quero um amor são, verdadeiro,

que une, que partilha, que acarinha,

que dá a paz, que rompe a solidão.

Amor perfeito, amor passageiro,

voando ao largo, como uma andorinha,

Dandelion

fugindo sempre, como uma ilusão…

Diana Sá

Outro poema para o meu amor doente
Janeiro 22, 2010

Outono, pássaro da melancolia

num céu sem cor que não promete nada,

mar de insónia onde o teu corpo paira

ou um aroma de terra molhada.

 

Eugénio de Andrade

É urgente
Janeiro 19, 2010

É urgente que as pessoas se amem

sem vergonha e sem tristeza

que se amem com orgulho

com a alegria pagã da joie grega.

É urgente que as pessoas não se escondam

por detrás de outras pessoas

das ideias de outras pessoas

dos muros expressos do medo.

É urgente que as pessoas se amem.

É urgente partilhar o pão e o corpo

com a claridade da terra molhada

nas manhãs de sol.

É urgente assumir a verdade.

 

Manuela Amaral

Nunca mais
Janeiro 12, 2010

Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir invulnerável, real e densa.

Para sempre está perdido

 o que mais do que tudo procuraste,

a plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

 

Sophia de Mello Breyner Andersen

 

Ano Novo
Janeiro 3, 2010

Por que será?

O ano principia com uma incógnita. Como já o anterior e outros o fizeram…

E eu ignoro a resposta. Continuo a ignorar, porque me é impossível encontrá-la sózinha, e quem me poderia ajudar se recusa…

Se tu soubesses

como custa

precisar de dados para resolver um problema

e ficar à espera,

eternamente à espera,

infinitamente à espera,

virias ao meu encontro

e dar-mos-ias,

porque pior do que conhecer qualquer resposta

é  morrer à sede  delas…