Archive for Junho, 2010

Poema 1
Junho 30, 2010

Pergunto-te onde se acha a minha vida.

Em que dia fui eu. Que hora existiu formada

de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida

por esperanças hereditárias? E de cada

pergunta minha vai nascendo a sombra imensa

que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença

de ti, de mim, da coisa perguntada,

do silêncio da coisa irrespondida.

Cecília Meireles 

Anúncios

Por-do-sol
Junho 26, 2010

Lembra-te que és o meu por-do-sol

mas sou eu que me afasto

enquanto brilhas ainda

amor

mergulho na terra

ouvidos na luz

meus olhos em ti.

Carlos Peres Feio

Solidão
Junho 23, 2010

Dias de solidão.

Há-os por muito que os não deseje.

Caminhos que devo percorrer sozinho.

Perguntas mudas, no ar.

As respostas, essas virão com o vento.

E serão minhas. Só minhas.

Daí a solidão.

Pedro

Despedida
Junho 19, 2010

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus  gestos

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque  ama os pescadores

Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo

Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara

a minha mão

reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas

eu escuto sempre a voz que é tua

e que dos lábios

se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes

o teu ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens

comandar o sentido das coisas

afogar poentes

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve

Mia Couto

E tudo era possível…
Junho 14, 2010

 

Na minha juventude antes de ter saído

da casa dos meus pais disposto a viajar,

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido,

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

Pensar em ti
Junho 10, 2010

 

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco às vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais

Ana Luisa Amaral

Ponto brilhante
Junho 6, 2010

És um ponto brilhante

na noite dos meus dias.

Sou o mundo onde tu não estás,

o corpo que a teus olhos não brilha.

Sou um vazio no teu escuro,

uma presença morta.

Sou olhos postos em ti

e entre eles e tu, distância.

Diogo Silva

Quero apenas
Junho 2, 2010

Quero apenas cinco coisas…

Primeiro é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono,

a terceira é o grave  inverno,

em quarto lugar o verão.

A quinta coisa são teus olhos.

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser… sem que me olhes.

Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda