Archive for Julho, 2010

Lágrima de preta
Julho 28, 2010

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

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Dá-me a tua mão
Julho 24, 2010

Dá-me a tua mão,

deixa que a minha solidão

prolongue mais a tua

– para aqui os dois de mãos dadas

nas noites estreladas,

a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,

até ao abismo da ternura derradeira.

José Gomes Ferreira

Versos do Prisioneiro (2)
Julho 20, 2010

Não é de amor que careço.

Sofro apenas

da memória de ter amado.

O que mais me dói,

porém,

é a condenação

de um verbo sem futuro.

Amar.

Mia Couto

 

Fluidez
Julho 16, 2010

Nada é imutável.

Tudo é mutável.

Tudo é transformação.

O Ser é o vector da cadência,

a entidade fluida

no irradiar do multiverso.

Nada é impossibilidade.

Tudo é possibilidade.

Tudo é evolução.

Vicente Ferreira da Silva

Crepúsculo
Julho 12, 2010

É quando um espelho, no quarto, se enfastia.

Quando a noite se destaca da cortina,

quando a carne tem o travo da saliva,

e a saliva sabe a carne dissolvida.

Quando a força de vontade ressuscita,

quando o pé sobre o sapato se equilibra,

e quando às sete da tarde morre o dia,

que dentro de nossas almas se ilumina

com luz lívida, a palavra despedida.

David  Mourão Ferreira

Amar
Julho 8, 2010

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
e vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
e em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
quase que prefiro não a encontrar,
para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro

Despedida 2
Julho 4, 2010

Junho chegara ao fim, a magoada

luz dos jacarandás, que me pousava

nos ombros, era agora o que tinha

para repartir contigo,

e um coração desmantelado

que só aos gatos servirá de abrigo.

                                                      Eugénio de Andrade