Archive for Agosto, 2010

Procura
Agosto 28, 2010

Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

Soneto inglês
Agosto 22, 2010

Como o silêncio do punhal num peito,

o silêncio do sangue a converter

em fio breve o coração desfeito

que nas pedras acaba de morrer,

vive em mim o teu nome, tão perfeito

que mais ninguém o pode conhecer !

É a morte que vivo e não aceito ;

é a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte ;

procurar noutros olhos a medida,

vencer o tempo, dominar a sorte,

atraiçoar a morte com a vida !

Depois morrer de coração aberto

e no sangue o teu nome já liberto…

Alexandre O’Neill

Cuéntame como Vives, como vas Muriendo
Agosto 13, 2010

Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.

Gabriel Celaya

À tua espera
Agosto 10, 2010

O meu mundo tem estado à tua espera ; mas

não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,

nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

 

que um poema se escreveria entre nós dois ; mas

não comprei o vinho, não mudei os lençóis,

não perfumei o decote do vestido.

 

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido)

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –

 

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio ; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera :

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.

 

Maria do Rosário Pedreira

Tempo em que se morre
Agosto 5, 2010

Agora é verão, eu sei.

Tempo de facas, tempo

em que perdem os anéis

as cobras à míngua de água.

Tempo em que se morre

de tanto olhar os barcos.

É no verão, repito.

Estás sentada no terraço

e para ti correm todos os meus rios.

Entraste pelos espelhos :

mal respiras.

Vê-se bem que já não sabes respirar,

que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios

te debruças lentamente.

Com rumor de água

sonâmbula ou de arbusto decepado

dás-me de beber

um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto,

e vais partir

sem nada me dizer,

pois só quiseste despertar em mim

a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares,

pelos espelhos entras na noite.

Eugénio de Andrade

 

Dois
Agosto 1, 2010

Dois…

Apenas dois…

Dois seres…

Dois objectos patéticos.

Cursos paralelos

frente a frente…

…Sempre

…a se olharem…

Pensar talvez :

” Paralelos que se encontram no infinito “…

No entanto sós por enquanto.

Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda