Archive for Setembro, 2010

Coisas
Setembro 30, 2010

Existem coisas que guardo para mim.

Existem coisas que não conto a ninguém,

eu as guardo para mim.

Eu as salvo do mundo,

as transformo em nós e laçadas

na medida em que teço o véu da memória.

Às vezes eu faço diamantes com elas…

Existem outras coisas também,

outras minhas,

essas são poesias.

Pedro Pizelli

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Entardecer
Setembro 27, 2010

Sei que estás longe e triste…

Não conheço a tragédia que escondes

 nos teus olhos meigos.

Mas sinto-a… esse desespero escondido

em sorrisos calmos e cansados.

A tua vertigem da morte assusta-me…

sobretudo pelo que traduz

de falta de esperança no amanhã.

Não te peço para renasceres…

apenas que deixes o encanto

do entardecer emprestar-te a sua luz

de fim de dia são, realizado…

Diana Sá

 

 

O meu Impossível
Setembro 22, 2010

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,

é um brasido enorme a crepitar!

Ânsia de procurar sem encontrar

a chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa

é nada ser perfeito. É deslumbrar

a noite tormentosa até cegar,

e tudo ser em vão! Deus, que tristeza!

Aos meus irmãos na dor já disse tudo

e não me compreenderam!… Vão e mudo

foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora

contar, não a chorava como agora,

irmãos, não a sentia como a sinto!…

Florbela Espanca

Como só a ti amaria
Setembro 18, 2010

Vieste sem te anunciares,

sem que precisasse de ti,

sem sentir a tua falta,

de mansinho,

como uma brisa suave.

E quando pensei em ti

já aqui estavas,

já me faltavas,

já te queria beijar.

 

O meu coração fechado era aberto,

a minha vida contada estava em branco.

Haviam palavras por dizer,

mãos que tinham muito por tocar.

 

Acordei e descobri que te queria,

num desejo que é mais do que desejo.

Em cada carícia sobre a tua pele,

e em cada beijo demorado,

um desejo de ser profundo,

tão profundo quanto o mais profundo mar…

 

Em cada beijo demorado,

ser mais do que eu,

dar-te mais do que tenho,

misturar-me mais do que em ti,

sermos mais do que um.

 

A cada beijo demorado,

sermos mais do que nós,

vontade mais do que nossa,

de nos despirmos de tudo,

e encontrar no fundo do olhar

o que existe para além de nós que nos tocamos.

 

A cada beijo amar-te a ti,

como só a ti amaria,

nem que para isso só tivesse este momento.

 

Ah! Quem te colocou no meu caminho?

João Tiago

Sorriso
Setembro 15, 2010

Creio que foi o sorriso,

o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz

lá dentro,

apetecia

entrar nele,

tirar a roupa

ficar

nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge

Tu já me arrumaste
Setembro 9, 2010

Tu já me arrumaste no armário dos restos

eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos

e das nossas memórias começamos a varrer

as pequenas gotas de felicidade

que já fomos.

Mas no tempo subjectivo

tu és ainda o meu relógio de vento

a minha máquina aceleradora de sangue

e por quanto tempo ainda

as minhas mãos serão para ti

o nocturno passeio do gato no telhado?

Isabel Meyrelles

Sonho
Setembro 4, 2010

Sonho, mas não parece.

Nem quero que pareça.

É por dentro que eu gosto que aconteça

a minha vida.

Íntima, funda, como um sentimento

de que se tem pudor.

Miguel Torga