Archive for Outubro, 2010

Que direi eu…
Outubro 28, 2010

Que direi eu de ti, de mim, de nós,

o imenso inacabado que nos perde…?

Que te espero nos dias que se afundam

em noites inquietas, solitárias…

 

Eu sei que o infinito imaginado

nada é mais do que isso, horas mortas,

suspensas no mistério dos minutos,

perdidas no horizonte insondável…

 

Sou um imenso campo aberto ao sol,

à neve, às intempéries do presente.

Tu ficas no recôndito sombrio,

escondes-te na letra de um poema…

Diana Sá

Somos folhas breves onde dormem
Outubro 23, 2010

Somos folhas breves onde dormem

aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio  de  Andrade

Uma lágrima
Outubro 19, 2010

Encosto a cabeça no vidro.

Lá fora anoitece. A chuva cai, gélida.

Fico a olhar o horizonte longínquo.

Por momentos fecho os olhos, fico a pensar em ti,

e teimosamente uma lágrima corre pela minha face.

E outra e mais outra.

Abro os olhos e vejo-te. Estarás aí?

Sorris.

Sorrio.

Uma leve brisa passa pela minha face,

gelando as lágrimas que não deixam de correr.

Fecho os olhos mais uma vez.

Desapareces.

Carlota Pires Dacosta

Ramo de flores
Outubro 14, 2010

Foi para vós que ontem colhi, senhora,
este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
tê-las-iam crestado antes da aurora.
   

Meditai nesse exemplo, que se agora
não sei mais do que o vosso ouro macio
rosto nem boca de melhor feitio,
a tudo a idade afeia sem demora.

 
Senhora, o tempo foge… o tempo foge….
Com pouco morreremos e amanhã
já não seremos o que somos hoje….

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge….A vida é breve e é vã….
Por isso, amai-me. Enquanto sois bonita.

Solveig von Schoultz (1907-1996

Não me inquieto
Outubro 11, 2010

Não me inquieto

quando não recebo as respostas

das perguntas que não fiz.

Eu me conformei

em reservar alguma coisa

de ti para saber depois.

Um pouco do nosso amor

será póstumo.

É  recomendável

não descobrir todos os segredos.

 

Fabrício Carpinejar

Ou apenas um sonho
Outubro 6, 2010

O desejo pediu.

 

Apareceste como um encanto,

neste Inverno,

doce brisa.

  

Com esse teu manto

quente e suave

protegeste-me.

 

Uma noite terna

e tranquila

ofereceste-me,

pois, com essa aragem de Verão,

o frio fugiu.

 

A solidão também partiu.

 

Breve vieste,

fugaz partiste.

 

De ti, pouco ficou.

Mas o mundo mudou!

 

Terás sido ou existido?

 

Foste imaginação

ou apenas um sonho,

um anseio do coração?

 

Vicente Ferreira da Silva

Cansaço
Outubro 3, 2010

Não, não é cansaço…

É uma quantidade de desilusão

que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas

do sentimento,

um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…

É eu

estar existindo

e também o mundo,

com tudo aquilo que contém,

como tudo aquilo que nele se desdobra

e afinal é a mesma coisa variada em cópias diferentes.

Álvaro de Campos