Archive for Novembro, 2010

Em silêncio
Novembro 29, 2010

entre nós,

jamais haverá esquecimento. só amor !

e a dor

que o faz pulsar.

 

beijo-te. em silêncio!

Vicente  Ferreira  da  Silva

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Uma vez que seja
Novembro 25, 2010

Tu, que navegas ao sabor do vento,

sem outra rota que a que se deseja.

Tu, que por mapa tens o firmamento,

vem descobrir-me, uma vez que seja!

 

E  diz-me das viagens que não faço,

dos mundos cintilantes que antevejo,

e traz-me mares de mel no teu abraço,

poeira de ouro velho no teu beijo!

 

Ó navegante da minha fantasia,

por quanto tempo mais te sonharei,

até terem sentido, num só dia,

todos os dias em que te esperei?

 

De ti não espero amarras nem promessas.

É  livre que te quero neste cais,

até que um dia em mim tu amanheças

e  te faças ao mar, uma vez mais…

 

É  que, mesmo na hora de perder-te,

sabendo que a magia se desfez,

terá valido a pena conhecer-te

e deslumbrar-me, ao menos uma vez!

Ana  Vidal

 

Despojo
Novembro 20, 2010

E, agora, o que faremos?

A quem legar o que resta

Do simulacro de festa

Que tivemos?

 

Quem aproveita os detritos

De uma alegria forçada?

Quem confunde aflitos gritos

Com imposta gargalhada?

 

Iremos por onde alguém

Descubra os nossos farrapos.

Vês flores no jardim de além?

– Vejo sapos.

 

 António Manuel Couto Viana , Voo Doméstico

Fumo
Novembro 15, 2010

Longe de ti são ermos os caminhos,

longe de ti não há luar nem rosas,

longe de ti há noites silenciosas,

há dias sem calor, beirais sem ninhos!

 

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

perdidos pelas noites invernosas…

Abertos, sonham mãos cariciosas,

tuas mãos doces, plenas de carinhos!

 

Os dias são Outonos : choram…choram…

Há crisântemos roxos que descoram…

Há murmúrios dolentes de segredos…

 

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!

E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

fumo leve que foge entre os meus dedos!…

Florbela  Espanca

Acordar
Novembro 10, 2010

Acordei com a vontade de te envolver
num doce e terno abraço…
De te pintar os traços numa tela de saudade…
De levar-te comigo… como o vento as folhas de Outono.
De beijar-te… como o mar revolto as rochas inertes.
De abrir-te os braços… como o fogo que arde na serra oferecida.
De escrever-te… palavras que o meu coração dita.
E deixá-las voar… como pássaro livre num calmo planar.
Ao teu encontro.
 
Isabel  Villaverde

Precisa-se um amigo
Novembro 7, 2010

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor…
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 

Vinicius de Moraes

Como fazer-te saber que há sempre tempo?
Novembro 1, 2010

 

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?

 

Mario Benedetti  em  Dos Afectos