Archive for Fevereiro, 2011

Os poemas
Fevereiro 28, 2011

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde

e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro,

eles alçam vôo como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto;

alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.

Poemas - pássaros

E  olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…

Mário Quintana

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Memória 2
Fevereiro 24, 2011

Carregas a minha boca na tua,

esta memória que arde em ti,

e ainda assim te vais,

teu corpo e tua alma estão marcados pelo amor.

Hão-de falar-te de mim os teus lábios,

a tua pele onde andaram os meus,

as nossas vozes misturadas de palavras e sussurros.

Estarão cada dia a lembrar-te.

Silvia   Chueire

Um fado – palavras minhas
Fevereiro 22, 2011

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus e mais felizes. 

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”

Frustração
Fevereiro 18, 2011

Foi bonito

o meu sonho de amor.

Floriram em redor

todos os campos em pousio.

Um sol de Abril brilhou em pleno Estio,

lavado e promissor.

Só que não houve frutos

dessa primavera.

A vida disse que era

tarde demais…

E que as paixões tardias

são ironias

dos deuses desleais.

Miguel  Torga

Viagem
Fevereiro 14, 2011

Viajo.

 Sozinho e contigo.

 Sozinho porque não estás ao meu lado.

 Contigo porque trago a tua música nos meus ouvidos,

 o teu sabor na minha boca,

 o teu corpo na minha cabeça.

 E continuo a viajar.

 Percorro as avenidas das nossas memórias,

 as estradas das nossas emoções,

 os caminhos do nosso amor,

que ligam os nossos corações.

 E não paro de viajar,

 porque tu és o caminho que não me canso de andar.

 

Jerónimo  Cruz

Sofrimento
Fevereiro 11, 2011

As plantas sofrem como nós sofremos.

Por que não sofreriam

se esta é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada

por mão inconsciente.

Há uma queixa abafada

em sua docilidade.

A pedra é sofrimento

paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,

sequer o privilégio de sofrer.

 

Carlos  Drummond  de  Andrade

Pedaço de nada
Fevereiro 8, 2011

Fugiu-me um pedaço de nada

da palma da minha mão.

Fiquei com a mão vazia

e um nó no coração.

 

Tanta falta, quem diria,

esse nada me faria.

Mas era um nada invulgar,

não vou achar o seu par.

 

Não têm conta os que somei,

os nadas que já perdi.

E  nem assim aprendi,

nem assim a mão fechei.

 

M  J  Rijo 

Sem depois
Fevereiro 4, 2011

Todas as vidas gastei para morrer contigo.

 

E agora

esfumou-se o tempo

e perdi o teu passo

para além da curva do rio.

 

Rasguei as cartas.

Em vão,

o papel restou intacto.

Só os meus dedos murcharam, decepados.

 

Queimei as fotos.

Em vão.

As imagens restaram incólumes,

e só os meus olhos se desfizeram

no dom das cinzas.

 

Com que roupa vestirei a minha alma

agora que já não há domingos?

Depois de te viver, não há poente.

Nem o enfim de um fim.

 

Todas as mortes gastei, para viver contigo.

 

Mia  Couto

Espero
Fevereiro 1, 2011

 

Espero sempre por ti o dia inteiro,
quando na praia sobe, de cinza e oiro,
o nevoeiro
e há em todas as coisas o agoiro
de uma fantástica vinda.

Sophia

 

Uma homenagem a uma grande poetisa, quando o seu espólio foi doado aos Portugueses.