Archive for Abril, 2011

Proximidades…
Abril 27, 2011

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Cada um que passa em nossa vida passa sozinho…
Porque cada pessoa é única para nós,
e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida passa sozinho,
mas não vai só…
Levam um pouco de nós mesmos
e nos deixam um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito,
mas não há os que não levam nada.
Há os que deixam muito,
mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da vida…
A prova tremenda de que cada um é importante
e que ninguém se aproxima do outro por acaso…

Saint Exupéry

A um livro
Abril 23, 2011

No silêncio de cinzas do meu Ser
agita-se uma sombra de cipreste,
sombra roubada ao livro que ando a ler,
a esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
as orações que choro e rio e canto!…

Poeta igual a mim, ai que me dera
dizer o que tu dizes! … Quem soubera
velar a minha Dor desse teu manto!…

Florbela Espanca, Livro de Mágoas

Amigos
Abril 20, 2011

Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmo que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários.

Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.

Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.

Eduardo Pitta  in  Desobediência. Poemas escolhidos

Dizem que a paixão o conheceu
Abril 16, 2011

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

A vida e a bola
Abril 12, 2011

A vida é como atirar uma bola à parede.

Se for atirada uma bola verde, ela voltará verde ;

se for atirada uma bola azul, ela voltará azul ;

se a bola for atirada fraca, ela voltará fraca ;

se a bola for atirada com força ,

ela voltará com força.

Por isso, nunca “atire uma bola na vida”,

de forma a que não esteja pronto para recebê-la.

A vida não dá nem empresta ;

não se comove nem se apieda.

Tudo o que ela faz é retribuir e transferir

aquilo que nós lhe oferecemos.

Albert  Einstein

 

 

I
Abril 8, 2011

O mais importante na vida

é  ser-se criador – criar beleza.

 

Para isso,

é  necessário pressenti-la

aonde os nossos olhos não a virem.

 

Eu creio que sonhar o impossível

é  como ouvir a voz de alguma coisa

que pede existência e que nos chama de longe.

 

Sim, o mais importante na vida

é  ser-se criador.

E  para o impossível

só devemos caminhar de olhos fechados

como a fé e como o amor.

António  Botto   em    Canções

 

 

À boca do cântaro
Abril 3, 2011

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

 

Eugénio  de  Andrade