Apelo à Poesia


Porque vieste? – Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(nem triste, nem alegre, de maneira
que pudesse sentir a tua falta…)
E tu vieste,
como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
pé ante pé, cobardemente oculta
nas ideias mais simples,
nos mais ingénuos sentimentos:
um sorriso, um olhar, uma lembrança…
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
presa ao meu coração
por um elo invisível;


Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
de zonas espectrais, de ignotos climas;
e, quando desço à vida, já não sei
onde era o meu lugar…
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
que só as tuas mãos saibam curar-me,
ou ninguém, se não tu, possa entender
o meu contentamento…
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

Carlos Queirós (1907-1949)

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