Archive for Junho, 2011

Do sentimento trágico da Vida
Junho 29, 2011


Não há revolta no homem 

que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado 
que dentro fica agarrado 
à tábua da teoria. 

Aquilo que nele mente 
e parte em filosofia 
é porventura a semente 
do fruto que nele nasce 
e a sede não lhe alivia. 

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar. 

Rebeldia é o que põe 
na nossa mão um punhal 
para vibrar naquela morte 
que nos mata devagar. 

E só depois de informado 
só depois de esclarecido 
rebelde nu e deitado 
ironia de saber 
o que só então se sabe 
e não se pode contar. 

Natália Correia, in “Poemas (1955)”

Seus olhos
Junho 26, 2011

Seus olhos – se eu sei pintar

o que os meus olhos cegou –

não tinham luz de brilhar,

era chama de queimar;

e o fogo que a ateou

vivaz, eterno, divino,

como facho do Destino.

Divino, eterno! – e suave

ao mesmo tempo: mas grave

e de tão fatal poder,

que, um só momento que a vi,

queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

senão a cinza em que ardi.

 

Almeida Garrett (Folhas Caídas)

Esperança
Junho 22, 2011

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade.

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Viver sempre também cansa
Junho 19, 2011

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
…ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam.
Não cai neve vermelha.
Não há flores que voem.

A lua não tem olhos.
Ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho
de vez em quando
e recomeçar depois
achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses.
Morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia.
Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

José  Gomes  Ferreira

Escreve-me
Junho 15, 2011

Escreve-me! Ainda que seja só
uma palavra, uma palavra apenas,
suave como o teu nome e casta
como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
que te não vejo, amor! Meu coração
morreu já, e no mundo aos pobres mortos
ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
folhas leves e tenras de boninas,
um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…

cinco pétalas roxas de saudade…

Florbela Espanca

Em todas as ruas te encontro
Junho 12, 2011

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mario Cesariny

Cuidados intensivos
Junho 9, 2011

Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

Mas dá-me para a melancolia,
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
da pintura do tecto,
as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objecto,
desapegado, desarrumado.

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
– no quarto e no coração -.

Manuel António Pina

Sonhe
Junho 5, 2011

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e

nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E  para aqueles que reconhecem a importância
das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta,
mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector

Agora que as palavras secaram
Junho 2, 2011

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

Eduardo Pitta