Archive for Julho, 2011

Tentei fugir
Julho 29, 2011

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David  Mourão – Ferreira

isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira

Vida 2
Julho 21, 2011

 Depois de algum tempo
aprendemos a diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendemos que
amar não significa apoiar-nos e que companhia nem sempre significa segurança.

Aprendemos que beijos não são
promessas.

E começamos a aceitar
as derrotas com a cabeça erguida.

Aprendemos a construir a nossa estrada no hoje,
porque o amanhã é incerto…

Depois de algum tempo aprendemos que o sol
queima se ficarmos expostos por muito tempo.

E aprendemos que não importa o quanto nós nos
importamos, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aprendemos que não importa o quão boa seja uma
pessoa, ela vai ferir-nos de vez em quando e precisamos perdoá-la por
isso.

Aprendemos que falar pode
aliviar as nossas dores emocionais.

Descobrimos que levamos anos para construir
confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podemos fazer coisas num
instante, das quais nos podemos arrepender o resto da vida.

Aprendemos que as verdadeiras amizades continuam
a crescer mesmo a longas distâncias.

E O QUE IMPORTA NÃO É O QUE TEMOS NA VIDA, MAS
QUEM TEMOS NA VIDA.

E os amigos são a família que nos permitiram
escolher.
Percebemos que
as pessoas que mais amamos na vida são levadas de nós muito depressa, por isso
devemos deixá-las sempre com palavras de afecto, porque pode ser a última vez
que as vemos.

Descobrimos que levamos muito tempo para nos
tornarmos na pessoa que queremos ser, mas que o tempo é curto.

Aprendemos que não importa onde já chegámos, mas
para onde vamos, e se soubermos isso, qualquer lugar serve.

Aprendemos que, ou controlamos as nossas acções
ou elas acabam a controlar-nos.

E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, porque em
todas as situações existem sempre dois lados.

Aprendemos que paciência requer muita prática.

Descobrimos que algumas vezes as
pessoas de que menos esperamos são aquelas que nos estendem a mão e ajudam a
levantar quando caímos.

Descobrimos
que só porque alguém não nos ama da forma que nós gostaríamos, isso não
significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.

Aprendemos que nem sempre é suficiente ser
perdoado por alguém, algumas vezes temos que perdoar-nos a nós próprios.

Aprendemos que
não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não pára
para que o possamos consertar.

Aprendemos que o tempo não é algo que possa
voltar para trás.

Aprendemos que
somos realmente fortes.

E que a
vida tem muito valor e que nós temos muito valor perante a
vida!

William  Shakespeare

Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais

Dá-me a tua mão
Julho 14, 2011

Dá-me a tua mão. 

Deixa que a minha solidão 
prolongue mais a tua 
— para aqui os dois de mãos dadas 
nas noites estreladas, 
a ver os fantasmas a dançar na lua. 

Dá-me a tua mão, companheira, 
até o Abismo da Ternura Derradeira. 

José Gomes Ferreira, in “Poeta Militante I” 

Noite
Julho 10, 2011

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer pressinto o aroma luminoso dos fogos
… escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

 
Al  Berto

O mundo não se fez para pensarmos nele
Julho 6, 2011

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

olhando para a direita e para a esquerda,

e, de vez em quando, olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

e eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

que tem uma criança se, ao nascer,

reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,

porque o vejo. Mas não penso nele

porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele

( pensar é estar doente dos olhos)

mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia : tenho sentidos…

Se falo na Natureza, não é porque saiba o que ela é,

mas porque a amo, e amo-a por isso,

porque quem ama nunca sabe o que ama

nem sabe por que ama, nem o que é amar …

Amar é a eterna inocência,

e a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro em  O Guardador de Rebanhos

Destino
Julho 3, 2011

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
e deseja o destino que deseja;
nem cumpre o que deseja,
nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
o Fado nos dispõe, e ali ficamos;
que a Sorte nos fez postos
onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis