Archive for Agosto, 2011

Eu XV
Agosto 31, 2011

Tudo quanto penso,
tudo quanto sou
é um deserto imenso
onde nem eu estou.

Fernando Pessoa

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Discurso
Agosto 27, 2011

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Cecília Meireles


Os anos são degraus
Agosto 23, 2011


Foto @ Life is Beautiful


Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?

Fernanda de Castro, in “Asa do Espaço”

Rio triste
Agosto 19, 2011

Longuíssimos braços têm
os olhos que tudo abraçam.
Somente, só os olhos vêem
os olhos que por mim passam.

Clandestinamente os lanço,
braços de mar, olhos de água.
Longo ser líquido avanço,
abraço a vida, e alago-a.

Destino do amor triste
que não se ouve nem se vê.
ama apenas porque existe.
Não sabe a quem nem porquê.

Nesta obrigação de estar
que a cada um de nós cabe,
coube-me esta de amar.
E ninguém sabe.

António Gedeão

Naufrágio
Agosto 15, 2011

Perdido no meio de uma tempestade
…que me rasgou as velas
me arrefeceu e me fez naufragar,
mergulhei no teu corpo revolto e ondulado,
acossado por piratas, adamastores
e outras gentes,
nadei por esse teu mar inconformado,
enfrentando as minhas nuvens de receios,
e as tuas promessas de ventos e correntes,
sedento, engoli a espuma que te enfeitava,
respirei o teu cheiro de maresia,
provei o teu sal de poesia,
que me aqueceu e me fez respirar,
mas veio depois uma onda
cobarde, repetida e traiçoeira
que me afogou, me fez desaparecer
e afundar nas palavras de um poema,
com um fim que apenas os dois
saberemos contar.

José Gabriel Duarte

Fundo do mar
Agosto 11, 2011

No fundo do mar há brancos pavores,
onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
a agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
no desalinho
dos seus mil braços,
uma flor dança,
sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Obra Poética I

Quadras
Agosto 6, 2011

A morte é curva na estrada,

morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

Fernando  Pessoa

Paisagem agreste
Agosto 2, 2011

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos : as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa –

era a força do vento contra o corpo do navio ; uma

miragem fatal da tempestade ; e o medo da tragédia

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

.

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. ( Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos).

.

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas –

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Mª Rosário Pedreira