Archive for Setembro, 2011

Quando eu me amei de verdade
Setembro 29, 2011


Quando eu me amei de verdade,

compreendi que em qualquer circunstância,

eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa

e então pude ficar tranquilo.

Hoje sei que a isso se chama Auto-estima.

Quando eu me amei de verdade,

pude perceber que a minha angústia e sofrimento

não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.

Hoje sei que a isso se chama Autenticidade.

Quando eu me amei de verdade,

parei de desejar que a vida fosse diferente,

e comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.

Hoje sei que a isso se chama Amadurecimento.

Quando eu me amei de verdade,

percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação.

Hoje sei que a isso se chama Respeito.

Quando eu me amei de verdade,

comecei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.

De início pensei que fosse egoísmo.

Hoje sei que a isso se chama Amor-próprio.

Quando eu me amei de verdade,

deixei de fazer grandes planos.

Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.

Hoje sei que a isso se chama Simplicidade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de querer ter sempre razão,

e com isso errei menos vezes.

Hoje sei que a isso se chama Humildade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.

Agora mantenho-me mais no presente.

Hoje sei que a isso se chama Plenitude.

Charlie Chaplin

Tristeza
Setembro 26, 2011

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino

Pablo Neruda 2
Setembro 22, 2011

Palavras 3
Setembro 18, 2011

É costume atirá-las sobre o medo.

Dizê-las sem pudor sobre o palco da noite

com grandes gestos gritos lágrimas.

Com elas percorremos

os oblíquos caminhos

que a solidão conhece.

Com elas ardilosos

enganamos a alma.

Mas são as outras

as claras as fugazes

as tímidas as doces

as pequenas palavras

que salvam os amantes.

Rosa  Lobato de Faria

1990
Setembro 15, 2011

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.

Amadeu  Baptista


Destino 2
Setembro 11, 2011

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto, em  “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Queria de ti um país
Setembro 8, 2011

O livro fechado
Setembro 4, 2011

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli, in “O Corpo de Atenas”