Archive for Outubro, 2011

O último poema
Outubro 23, 2011

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais,
que fosse ardente como um soluço sem lágrimas,
que tivesse a beleza das flores quase sem perfume,
a pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos,
a paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

Ecos
Outubro 19, 2011

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

23
Outubro 15, 2011

Busquei na saudade funda

que os seus olhos me deixaram

a coragem –

e a firmeza resistente

p’ra fugir da sua vida.

   …

Agora, já sou aquele

que os outros querem que eu seja :

normal, um pobre-diabo

que obedece ao preconceito

moralíssimo, profundo,

de beijar a eterna esfinge…

   …

Já deixei o meu amor,

já fiz a vontade ao mundo.

António  Botto

Idílio
Outubro 11, 2011

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
colher nos vales lírios e boninas,
e galgamos dum fôlego as colinas
dos rocios da noite inda orvalhadas:

ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,
contemplamos as nuvens vespertinas
que parecem fantásticas ruínas
ao longe, no horizonte, amontoadas:

quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
sinto tremer-te a mão, e empalideces…

O vento e o mar murmuram orações,
e a poesia das cousas se insinua
lenta e amorosa em nossos corações.

Antero de Quental

Ultimato
Outubro 2, 2011

O país dança?, disse-lhe,

tropeçando na sombra

que o seu vestido carimbava

no largo da Matriz.

Mas o país alegou cansaço,

pé de chumbo, futuro

comprometido.

O país dança?, tornei

a coberto das canas

que os céus assobiavam, mas o país não dançava

e nas trevas circundantes

as silvas o emboscavam

com juras de morte ao campo

que fora do canto segador.

O vento angariava palavras para partir.

O país dança? Pois dance agora

ou cale-se para sempre

e decida-se depressa

enquanto a música não cessa

ou entre nós

está tudo acabado.

Rui Lage em  “Um Arraial Português”