Archive for Novembro, 2011

Lembro-me bem do seu olhar
Novembro 26, 2011

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim, o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
e  não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
tão triste que me pareceu que me seria impossível
viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.

Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave,
onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo,
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa

Entre querer e poder
Novembro 21, 2011

 Entre querer e poder

há apenas uma imensidão de lagos transparentes
de silêncios e verdades
de hesitações
Entre querer e poder há um tempo
que se fechou em armários
entre fotografias e verdades
Entre querer e poder há uma lei
inexorável
a lei do tempo
de papéis velhos sem cores nem rei
dos restos do momento
Entre querer e poder
há uma imensidão de lagos transparentes
e um lamento

Raul Cordeiro

18
Novembro 16, 2011

Se hoje á noite chover

talvez me vá estender ao sol da tua face

como se acreditasse

que o outono voltou.

E no banco de ver

dourados e vermelhos

vou cruzar os joelhos

ao lado de quem sou.

   …

Vou à esquina de ti comprar castanhas

guardá-las nas entranhas

dos bolsos de inventar.

Vou ao sótão de nós buscar a lenha

de acender a fogueira de falar.

Cortarei o pão quente da conversa

perguntas e respostas e risadas

que são bolos de festa.

Falaremos do sol, das madrugadas,

do mar e da floresta.

E se ainda chover

quando a vitrola da alegria der

compassos soltos de uma moda antiga

(que ninguém canta mais)

trocaremos palavras rituais

que servem p’ra fazer uma cantiga

(trigo, linho, papoila, malmequer,

saudade, rapariga…)

Diremos orações no tom do vento

exconjurando fantasmas que há em nós.

Faremos o amor visto por dentro

junto à lareira de não estarmos sós.

Ouviremos na cama o som da chuva

(sempre chove na sede de quem quer).

De folha em folha seca

de uva em uva

juntaremos os corpos à saúde

desse outono dourado que vier.

Porém se tudo não surtir efeito

e disseres que novembro não voltou,

vou pousar a cabeça no teu peito.

Saberás que o outono já chegou.

Rosa Lobato de Faria

 

Já não vivo, só penso
Novembro 11, 2011

Já não vivo, só penso. E o pensamento

é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Fernanda de Castro, em “E Eu, Saudosa, Saudosa”