Archive for Fevereiro, 2012

A caminho do Corvo
Fevereiro 26, 2012

A minha vida está velha.

Mas eu… sou novo até aos dentes.

Bendito seja o deus do encontro,

o mar que nos criou na sede da verdade,

a moça que o canal tocou com seus fantasmas

e se deu de repente a mim como uma mãe.

.

Pois fica-se sabendo:

que da espuma do mar sai gente e amor também.

Bendita a milha, o espaço ardente

e a mão cerrada contra a vida esmagada.

Abençoemos o impossível !

E que o silêncio bem ouvido

seja para mim no amor de alguém.

.

Vitorino  Nemésio

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Afirmação triste
Fevereiro 21, 2012

Já fiz as pazes contigo ;

e se algum ressentimento

entre nós, pode surgir,

a culpa –

não será do que fizermos

de hoje em diante

– apenas, possivelmente,

do que os nossos corações

teimarem

muito em silêncio sentir.

.

Contudo,

não podemos protestar:

o sofrimento passa, meu amor ;

mas a lembrança de ter sofrido

quem é que a pode arrancar?

António  Botto

Talvez
Fevereiro 16, 2012

Talvez um destes dias
ao regressar por palavras desertas
de ausentes poemas
não encontre ninguém
real
que me abra a porta.

Talvez essa porta presa por um fio
no limiar do vento
se tenha já desvanecido
entre brumas e cansaços
ou talvez nem tenha existido,
um dia.

Os meus olhos cegos de ver
secarão, talvez.
O meu nome ter-se-á perdido
das vozes dos pássaros e ninguém
mais o pronunciará.

Há nisso um fio de sangue a verter,
uma mancha vermelha em redor de sonhos
desfigurados.
Mas há nisso ainda um leve estremecer,
uma pequena chama
a clamar por um sopro
que a faça incêndio.

LÍDIA BORGES

Instante
Fevereiro 11, 2012

Se tanto me dói que as coisas passem
é porque cada instante em mim foi vivo
na busca de um bem definitivo
em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu
Fevereiro 6, 2012

Eu sou a que no mundo anda perdida,

eu sou a que na vida não tem norte,

sou a irmã do Sonho, e desta sorte

sou a crucificada… a dolorida…

.

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

e que o destino amargo, triste e forte,

impele brutalmente até à morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

.

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

.

Sou talvez a visão que alguém sonhou,

alguém que veio ao mundo p’ra me ver

e que nunca na vida me encontrou!

Florbela  Espanca

Onde pus a ‘sperança
Fevereiro 1, 2012

Onde pus a ‘sperança, as rosas

murcharam logo.

Na casa, onde fui habitar

o jardim, que eu amei por ser

ali o melhor lugar,

e por quem essa casa amei –

deserto o achei,

e, quando o tive, sem razão p’ra o ter.

.

Onde pus a afeição, secou

a fonte logo.

Da floresta, que fui buscar

por essa fonte ali tecer

seu canto de rezar –

quando na sombra penetrei,

só o lugar achei

da fonte seca, inútil de se ter.

.

P’ra quê, pois, afeição, ‘sperança

se perco, logo

que as uso, a causa p’ra as usar,

se tê-las sabe a não as ter?

.

Crer ou amar –

até à raiz, do peito onde alberguei

tais sonhos e os gozei,

o vento arranque e leve onde quiser

e eu os não possa achar !

Fernando  Pessoa