Archive for Março, 2012

A mulher feliz
Março 28, 2012

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na, está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
Só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!

Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais intima distância.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em VOLANTE VERDE

Pérola solta
Março 23, 2012

Sem que eu a esperasse,
… rolou aquela lágrima
no frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho…,
até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede


rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
na boca me cantou,
breve como essa lágrima,
esta breve elegia.

José Régio   em   Filho do Homem

Dizem que finjo ou minto
Março 18, 2012

Dizem que finjo ou minto 
tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo, 
o que me falha ou finda, 
é como que um terraço 
sobre outra coisa ainda. 
Essa coisa é que é linda. 

Por isso escrevo em meio 
do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 

sério do que não é, 
Sentir, sinta quem lê! 

Fernando Pessoa,   em “Cancioneiro”

Dia 46
Março 12, 2012

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas.

… São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.

São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.
Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.

São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

couple2
Joaquim  Pessoa  em  Ano Comum

Espionagens verbais
Março 7, 2012

Anda desde a manhã uma palavra
… a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos ? e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

Ana Luísa Amaral

Ânsia
Março 2, 2012

Procuramos no dia-a-dia

a centelha de gozo que nos queime.

No tédio e no cansaço,

na memória do que ficou sonhado

e não concretizado,

na busca incessante do inalcançado,

a febre da plenitude.

Porque somos frágeis,

porque tudo requer esforço,

mas queremos sempre ir mais além…

Diana  Sá