Archive for Abril, 2012

Se cada dia cai
Abril 30, 2012

Se cada dia cai, dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está presa.
.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra

e pescar luz caída

com paciência.

Pablo Neruda

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Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa

Os olhos do poeta
Abril 19, 2012

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
… e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
– todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol
na noite de angústia que pesa no mundo.
.
MANUEL DA FONSECA,  em  POEMAS COMPLETOS

Sábados
Abril 14, 2012


Lá fora, há um ocaso, obscura jóia
… engastada no tempo,
e uma recôndita cidade cega
de homens que não te viram.
A tarde cala ou canta.
Alguém descrucifica os ansios
cravados no piano.
Sempre a abundância da tua beleza.
* * *

A despeito do teu desamor,
a tua beleza
prolonga o seu milagre pelo tempo.
A felicidade mora em ti
tal como a Primavera numa folha nova.
Não sou quase ninguém,
sou apenas o anseio
que se perde na tarde.
Em ti mora o prazer
tal como a crueldade nas espadas.

* * *

Carregando as persianas vem a noite.
Na sala tão severa, como cegos,
procuram-se uma à outra as nossas solidões,
Sobreviveu à tarde
a brancura gloriosa da tua carne.
No nosso amor há uma pena
parecida com a alma.

* * *

Tu
que ainda ontem eras só toda a beleza
és agora também todo o amor.

Jorge Luís Borges

?
Abril 9, 2012

Quem fez ao sapo o leito carmesim

de rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

e perfumou as sombras do jardim?

.

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Quem deu esses cabelos de rainha

ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

alma a sangrar? Quem me criou a mim?

.

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

.

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– sem nos dar braços para os alcançar?

Florbela  Espanca

Finalmente vivo
Abril 3, 2012

Vivamos cada instante com profunda intensidade.

Se a vida é uma verdadeira dádiva do Universo,

quem somos nós para abreviá-la com infelicidade?

.

Pela manhã levantemo-nos em paz com as nossas dores.

Fiquemos em paz e harmonia com o espelho,

sem nos culparmos pela vaidade ferida.

Fiquemos em paz com os nossos valores,

exorcizando todas as angústias e mágoas.

.

Para que os outros nos aceitem como somos,

nós é que temos de nos aceitar primeiro,

naquilo que temos de imperfeito.

Amando e curando as nossas feridas,

aquelas bem fundas, onde só nós lá chegamos.

.

Mesmo que a vida se mostre vazia de significados,

e que tudo à nossa volta pareça conspirar contra nós.

Fundamental é mesmo não esquecer e ter presente,

que só nós somos os juízes das nossas vidas.

Da minha parte confesso já ter perdido a pressa,

que foi preciso passar pela dor do orgulho ferido,

para descobrir o verdadeiro significado da minha vida.

Finalmente sou coerente quando digo que vivo!

Luís Pedro Proença   em   Alma Zen