Archive for Junho, 2012

Piloto automático – 2
Junho 28, 2012

Verde vento que vestes o que resta
… da noite mal gritada em vozes loiras,
ensina-me a rasgar os precipícios
de um corpo sem verdade nem mentira
na poeira do mundo que ainda é
talvez apenas música, talvez
respiração dos astros tresloucados
sem órbita que os olhos iluminem
no silêncio tão escuro deste céu.
Verde vento que vestes a manhã,
ensina-me a falar como quem ouve
ainda a voz de alguém, o seu segredo
que a madrugada acende no meu rosto,
ensina-me a romper o dia claro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  POEMAS ESCOLHIDOS

Em frente do mar
Junho 22, 2012

Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
… que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.

NUNO JÚDICE,  em  O ESTADO DOS CAMPOS

Europas Schande
Junho 16, 2012

Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,

bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.

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Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,

wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.

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Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,

dem Dank zu Schulden Dir Redensart war.

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Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum

gepflegte Museen schmückt : von Dir gehuetete Beute.

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Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land heimgesucht,

trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.

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Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir

einst als Bündnispartner wurden.

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Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht

den Gürtel enger und enger schnallt.

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Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit

kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.

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Ausser Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge alles,

was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.

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Sauf endlich, sauf!, schreien der Kommissare Claqueure,

doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.

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Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,

deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.

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Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,

dessen Geist Dich, Europa, erdachte.

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Günther Grass

O amor é uma companhia
Junho 10, 2012

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
e ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Eu luminoso não sou
Junho 3, 2012


Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
um poço mais remoto, e habitado
… de cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
secreto e intratável das águas interiores,
uma roda de céu ondulando se alarga,
digamos que é o mar: como o rápido canto
ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
o movimento de asas. O musgo é um silêncio,
e as cobras-d’água dobram rugas no céu,
enquanto, devagar, as aves se recolhem.

JOSÉ SARAMAGO, em PROVAVELMENTE ALEGRIA