Piloto automático – 2


Verde vento que vestes o que resta
… da noite mal gritada em vozes loiras,
ensina-me a rasgar os precipícios
de um corpo sem verdade nem mentira
na poeira do mundo que ainda é
talvez apenas música, talvez
respiração dos astros tresloucados
sem órbita que os olhos iluminem
no silêncio tão escuro deste céu.
Verde vento que vestes a manhã,
ensina-me a falar como quem ouve
ainda a voz de alguém, o seu segredo
que a madrugada acende no meu rosto,
ensina-me a romper o dia claro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  POEMAS ESCOLHIDOS

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