Archive for Julho, 2012

Im Ernstfall
Julho 31, 2012

Im Ernstfall

ist jeder allein mit sich

und dem verlassenen Kind.

Die Entfernungen

werden größer.

Nur selten einmal

reicht eine Brücke von

einem zum anderen Ufer.

Nur selten ist jemand da

im Ernstfall.

Anne Steinwart

.

Numa situação difícil

cada pessoa está só

como uma criança abandonada.

As distâncias

aumentam.

Só raramente

existe uma ponte

a unir as duas margens.

Só raramente está alguém lá

numa situação difícil.

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Nós somos
Julho 25, 2012

Como uma pequena lâmpada subsiste
… e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo,

caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos.

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

paz1
ANTÓNIO RAMOS ROSA,  em  SOBRE O ROSTO DA TERRA (1961)

Pela voz contrafeita da poesia ( excerto 2 )
Julho 19, 2012

[…]
… Ah
onde estão os relógios que nos davam
o tempo generoso
os dedos virtuosos os pezinhos
musicais do tempo
as salas onde o luxo abria a asas
e voava de cadeira em cadeira
de sorriso em sorriso
até cair exausto mas feliz
na almofada muito azul do sono.
Onde está o amor a sublime
rosa que os amantes desfolhavam
tão alheios a tudo raptados
pela mão aristocrática do tempo
o amor feito nos braços do regaço
de um tempo fácil
perdulário
vosso.
Hoje não é fácil o tempo
já não é vosso o tempo
viajantes de sonho que divide
doces irmãos da rosa
colunas do templo do Imóvel
prudentes amigos da vertigem
deliciados poetas duma angústia
sem vísceras reais
já não é vosso o tempo.
Noivas do invisível
não é vosso o tempo
Relógios do eterno
não é vosso o tempo.
[…]
relogio
ALEXANDRE O’NEILL,  em  TEMPO DE FANTASMAS

Saudade
Julho 14, 2012

Magoa-me a saudade
… do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio,
tua virtude, tua carência
eu, que longe de ti sou fraco
eu, que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim,
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO, em  RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS

Morrer
Julho 9, 2012

Eu vi morrer  três pessoas
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morrer;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.
.
Nós nunca vemos ninguém morrer,porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez amor.
 .
O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer
 .
e o amor também.

luís filipe castro mendes

Dia 255 (excerto)
Julho 3, 2012

Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs.
… Cheia de ti. Do teu brilho,do teu cheiro, do teu
sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus
olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo
numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós.
E à tua pergunta natural: “o que é que estamos
aqui a fazer?”, eu responderia também
naturalmente: “se cá estamos,

é porque fazemos cá falta!”.

JOAQUIM PESSOA,  em  ANO COMUM (Litexa, 2011)