Archive for Agosto, 2012

Defeito de fabrico
Agosto 25, 2012

Quando nasci, trazia de origem

um farol que despejava luz a jorros

sobre o que quer que fosse,

mormente sobre as dobras

pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,

também os faróis estão sujeitos

às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje, não é

mais do que um triste farolim de bicicleta

que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido

a uma simples lanterna de bolso

com que mal poderei reconhecer

o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,

o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,

e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.

Mas a garantia caducou e o fabricante

nega-se a ressarcir-me do escuro.


A. M. Pires Cabral

Mulher
Agosto 15, 2012

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em O TEU ROSTO

Data
Agosto 5, 2012

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia Mello Breyner