Archive for Setembro, 2012

Poema contíguo ao Ódio
Setembro 30, 2012

Que gelado sopro nos agita

do lado de dentro das ruas?

 .

Que rápida vertigem nos domina

nesta agudíssima manhã?

.

Este vento que nos queima

estas veias mais quentes

Estes longos minutos

que sacodem o rosto

Estes ponteiros gigantes

que nos marcam os séculos

Estes rios de sal que abrem

sulcos nos ossos

.

Esta raiva que nos corta

estas lâminas nos lábios

Estes vidros de silêncio que

nos enchem a boca

Estes deuses que sorriem

estas lágrimas mais puras

Estes grandes traços negros

de trânsito impedido

João Rui de Sousa

Trespasse
Setembro 23, 2012

Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados

– com naftalina – num baú inútil.

Por mim abdico desses vãos cuidados.

Deixai-me ser liricamente fútil !

.

Estou resolvido. Vou abrir falência.

( Bandeira rubra desfraldada ao vento :

” Hoje, leilão!”) Liquida-se a existência

– por retirada para o esquecimento…

Daniel  Filipe  

Paz
Setembro 16, 2012

– O senhor é feliz?

– Não sei, não sei. Eu não sei o que é ser feliz. Eu vivo, e vivo em paz com os meus semelhantes.

– O que é a esperança, para o senhor?

– Um fio muito fino, ao qual eu me agarro p’ra não morrer desesperado.

Drummond de Andrade

Vila do Conde
Setembro 9, 2012

Em ti
Setembro 2, 2012

Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales


e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A translucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória

de todas as coisas vivas.

Gonçalo Salvado