Archive for Outubro, 2012

Wüsste ich nicht
Outubro 28, 2012

Einfach abhauen sollte man

einfach weggehen

in eine andere Stadt

zu anderen Menschen

zu einem neuen Leben.

Wüsste ich nicht

dass ich mich mitnehmen muss

dass ich mich nicht zurücklassen kann

wie einen alten Stuhl

ich würde es versuchen

ein neues Leben

in einer anderen Stadt.

Anne  Steinwart

.

Devia ser possível ir

simplesmente embora

para outra cidade

para outras pessoas

para uma vida nova.

Se eu não soubesse

que tenho de me levar

que não posso deixar-me ficar

como uma cadeira velha,

eu tentaria começar

uma vida nova

numa outra cidade.

Confidência
Outubro 21, 2012

observado

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

Carta a Sophia
Outubro 14, 2012

CARTA A SOPHIA
OU
O QUINTO POEMA DO PORTUGUÊS ERRANTE

… Querida Sophia: como os índios do seu poema
também eu procurei o país sem mal.
Em dez anos de exílio o imaginei
como os índios utópicos também eu queria
um outro Portugal em Portugal.
Mas quando regressei eu não o vi
como eles me perdi e nunca achei
o país sem mal.

Talvez a própria vida seja isto
passar montanha e mar sem se dar conta
de que o único sentido é procurar.
Como os índios do seu poema eu não desisto
sou um português errante a caminhar
em busca do país que não se encontra.

MANUEL ALEGRE,  em  LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE

Presentes de um poeta
Outubro 7, 2012

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar

e para onde tu fores levarás minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Foto: PABLO NERUDA, in PRESENTES DE UM POETA (Arteplural ed.)</p><br /><br />
<p>Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,<br /><br /><br />
já não se achará doce minha dor a teu lado.</p><br /><br />
<p>Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar<br /><br /><br />
e para onde tu fores levarás minha dor.</p><br /><br />
<p>Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos<br /><br /><br />
um desvio na rota por onde o amor passou.</p><br /><br />
<p>Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,<br /><br /><br />
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.</p><br /><br />
<p>Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.<br /><br /><br />
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.</p><br /><br />
<p>…Desde teu coração diz adeus um menino.<br /><br /><br />
E eu lhe digo adeus.</p><br /><br />
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Pintura de dafni amecke tzitzivakos</p><br /><br />
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(LT)
Pablo  Neruda