Archive for Novembro, 2012

Poema primeiro
Novembro 28, 2012


Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.

Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.

Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.

Gosto-te. Na-na-na, na-ô…
Na-na-na, na-ô… na-nô…
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

*

JOAQUIM PESSOA,  em  GUARDAR O FOGO

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Não saibas : imagina
Novembro 19, 2012

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
que o mar não cabe
na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
de ilusões…
Um á-bê-cê secreto
que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
de encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
vais ao colo das brisas,
aias da fantasia…

Miguel Torga

Foto: João Carvalho (21 de Agosto de 2012)

Hoje
Novembro 12, 2012

Hoje não sei do que sou capaz.

.

Às vezes não procuramos respostas.

Outras, não conseguimos vê-las.

.

De vez em quando a inteligência deixa-nos

como um cônjuge saturado, incapaz de nos suportar.

Mas temos obrigação de viajar

espreitando pelas janelas da água, pelo postigo da indulgência,

espalhar pela distância o embaraço

de modo a regressar felizes como crianças exibindo

troféus coloridos de algodão de açúcar.

.

Disputamos muitos jogos num estádio vazio

desperdiçando as mais flagrantes oportunidades,

porque aceitamos como normal o medo de vencer.

E no entanto todos os momentos são bons

para escutar o mar ou palmilhar desertos

com uma candeia ou com um sol por companheiros

que possam ajudar-nos a dissipar o conjunto das sombras

e, na dúvida, reconhecer a forma das coisas,

as que nos pertencem e as que nunca serão nossas

mas que queremos nossas por não nos pertencerem.

.

O que puderes tocar, tenta alcançá-lo.

O que não puderes saber, não ignores.

Constrói a casa em pleno mar.

Percorre a estrada em pleno voo.

Joaquim  Pessoa em   O Pouco é para Ontem

Árvores
Novembro 4, 2012

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
que traçam linhas de coisa a coisa,
que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,


e desenham paralelos de latitude e longitude
sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso.

 Alberto Caeiro