Archive for Janeiro, 2013

Palavras
Janeiro 31, 2013

amo as palavras na sua sensualidade cheia de curvas, bocas apelativas…
amo as palavras no silêncio de serem ecos do infinito que me
habita e me persegue como uma sombra de mim…
amo as palavras porque rasgam as minhas vontades no desejo de se exprimirem,porque com elas questiono a vida, me amortalho, me transcendo, me perco entre nuvens…
amo as palavras porque elas me habitam sem pecado, porque me fazem chegar ao outro lado do mundo…

 

meditando_fhdr-1assinado
Margarida  Vieira
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Dez réis de esperança
Janeiro 22, 2013

o-exito-da-vidaSe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

Dia 129
Janeiro 17, 2013

Sou um artesão que trabalha na oficina das palavras.
Não tenho asas como os grifos, como os pássaros, como todos os homens que sonharam voar.
Ícaro, Leonardo, Gusmão.
Tenho o sonho deles mas não preciso de asas.

Vôo com as palavras. Vou com as palavras.

Subi as ladeiras do tempo carregado de sílabas e de esperanças.
Todos os lugares me julgaram inocente e,
nas horas solitárias, vi morrer as pessoas e as coisas
mas não os pensamentos.
Voar foi escrever, habitar a música, tornar humana a fantasia do anjo,
sabendo bem que nem hábitos nem
gestos emprestaram serenidade à escrita.
O poema não foi puro, não é puro, não será puro.
Visto por ele, o mundo não é um lugar para a verdade,
nem é uma casa vazia.

É como a velhice que nos vai traindo, dando-nos sabedoria,
retirando do corpo para dar ao espírito.
E assim caminhamos para a luz com pés de chumbo e
muitas vezes sem amor.

Têm-me valido, de todo, as palavras.
As carregadas de amor e as outras.
Desarmadas. Simples. Dignas.

E também as que são fogo, tempestade ou raiz.
Vou fazendo danos a mim mesmo.
Feridas e negações.
Mas prossigo, escrevendo. Com amor.
Qualquer palerma sabe, mesmo não sendo escritor,
que sempre é melhor ter amor que ter dinheiro.
Sem que uma coisa, necessariamente, deva impedir a outra.

beauty-eyes
Joaquim Pessoa  em    “Ano Comum

Quase nada
Janeiro 8, 2013

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.

Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade.