Dia 129


Sou um artesão que trabalha na oficina das palavras.
Não tenho asas como os grifos, como os pássaros, como todos os homens que sonharam voar.
Ícaro, Leonardo, Gusmão.
Tenho o sonho deles mas não preciso de asas.

Vôo com as palavras. Vou com as palavras.

Subi as ladeiras do tempo carregado de sílabas e de esperanças.
Todos os lugares me julgaram inocente e,
nas horas solitárias, vi morrer as pessoas e as coisas
mas não os pensamentos.
Voar foi escrever, habitar a música, tornar humana a fantasia do anjo,
sabendo bem que nem hábitos nem
gestos emprestaram serenidade à escrita.
O poema não foi puro, não é puro, não será puro.
Visto por ele, o mundo não é um lugar para a verdade,
nem é uma casa vazia.

É como a velhice que nos vai traindo, dando-nos sabedoria,
retirando do corpo para dar ao espírito.
E assim caminhamos para a luz com pés de chumbo e
muitas vezes sem amor.

Têm-me valido, de todo, as palavras.
As carregadas de amor e as outras.
Desarmadas. Simples. Dignas.

E também as que são fogo, tempestade ou raiz.
Vou fazendo danos a mim mesmo.
Feridas e negações.
Mas prossigo, escrevendo. Com amor.
Qualquer palerma sabe, mesmo não sendo escritor,
que sempre é melhor ter amor que ter dinheiro.
Sem que uma coisa, necessariamente, deva impedir a outra.

beauty-eyes
Joaquim Pessoa  em    “Ano Comum

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