Archive for Fevereiro, 2013

Espera
Fevereiro 28, 2013

Quando  estiveste  aqui, amor, os  dias

foram  céu, foram  sonho, foram  vida.

Vestiste-os  de  luz.  Só  tu  podias

e  levaste-me  à  terra  prometida.

beijos

Nos  teus  braços,  todas  as  fantasias

acontecem,  eu  sinto-me  querida.

Solto  o  meu  coração. Não  conhecias

a  fome  de  amor  que  trago  escondida.

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Partiste.  Agora  um  mundo  nos  separa.

É  difícil  viver  longe  de  ti,

sem  ouvir  a  tua  voz, sem  te  beijar.

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Invento  para  nós  a  manhã  clara

do  reencontro.  Sei  o  que  perdi

quando  te  foste, amor, e  sei  esperar.

        .

Diana Lima

As Gavetas
Fevereiro 21, 2013

Não deves abrir as gavetas

fechadas: por alguma razão as trancaram,

e teres descoberto agora

a chave é um acaso que podes ignorar.

Dentro das gavetas sabes o que encontras:

mentiras. Muitas mentiras de papel,

Cansaço

fotografias, objectos.

Dentro das gavetas está a imperfeição

do mundo, a inalterável imperfeição,

a mágoa com que repetidamente te desiludes.

As gavetas foram sendo preenchidas

por gente tão fraca como tu

e foram fechadas por alguém mais sábio do que tu.

Há um mês ou um século, não importa.

Pedro  Mexia

As palavras interditas
Fevereiro 14, 2013

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

barco 2
Eugénio  de  Andrade

Jeux interdits
Fevereiro 7, 2013