Archive for Março, 2013

De novo
Março 28, 2013

De novo os passos, mansos, nas escadas.

De novo as chaves a cantar na porta.

Tulipas de silêncio amedrontadas

aguardam o sorriso que conforta.

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De novo as mãos onde despontam rios.

De novo os olhos onde oscila a lua.

E desato as amarras dos navios

e das palavras que me fazem tua.

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Chegar é confessar que me desejas.

Calar é confirmar que não dispenso

o gesto em que, gaivota, me insinuo…

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Se de leve no ombro tu me beijas,

pela seda da roupa te pertenço

pela sede da boca te possuo.

olhosnosolhos

Rosa Lobato de Faria

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X
Março 21, 2013

Bravo pássaro que passaste e passarás

azul, a sul, sob o sólido sol da solidão.

Pássaro dos sentidos, do sentido da vida,

para todo o sempre não é para ti mais que a travessia da noite ao amanhecer.

Mas eu sigo-te, ó senhor de nada, tu que te alimentas de pedacinhos de céu,

irmão de tudo o que em mim também voa e também canta,

timidez emplumada onde brilham as cores dos frutos e do mundo.

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Aparece, ó pássaro de mim, em mim, poisa

no que resta da minha alegria, nos ramos da minha carne,

e canta, canta de uma forma irreparável

o meu canto e o canto alheio,

o meu grito e a vontade que tenho de chorar.

Com uma força destruidora da virtude,

ultrapassa a luz, ultrapassa o pensamento,

inscreve as minhas interrogações, as minhas dúvidas

na fadiga das horas, escreve com o teu bico celeste

o meu epitáfio, um poema

de amor para a mulher que me prendeu e me fez livre,

a que vive em mim, a que acredita em mim,

a que como tu desafia as manhãs e surpreende a noite,

a minha amada, pássaro, a mulher que eu amo

como os poetas amam a liberdade de alguns pássaros

e de todos os pobres.

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Joaquim  Pessoa

Metamorfose
Março 14, 2013

fondo-bosque-de-secuoyas

Para a minha alma eu queria uma torre como esta
assim alta ,
assim de névoa acompanhando o rio.
Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a chuva estaria
se eu soubesse ter…
na luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

Jorge de Sena

Sonhos
Março 7, 2013

Apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias.

noite-de-luar
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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in POESIA (Ed. de autora, 1944), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)