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Bravo pássaro que passaste e passarás

azul, a sul, sob o sólido sol da solidão.

Pássaro dos sentidos, do sentido da vida,

para todo o sempre não é para ti mais que a travessia da noite ao amanhecer.

Mas eu sigo-te, ó senhor de nada, tu que te alimentas de pedacinhos de céu,

irmão de tudo o que em mim também voa e também canta,

timidez emplumada onde brilham as cores dos frutos e do mundo.

.

Aparece, ó pássaro de mim, em mim, poisa

no que resta da minha alegria, nos ramos da minha carne,

e canta, canta de uma forma irreparável

o meu canto e o canto alheio,

o meu grito e a vontade que tenho de chorar.

Com uma força destruidora da virtude,

ultrapassa a luz, ultrapassa o pensamento,

inscreve as minhas interrogações, as minhas dúvidas

na fadiga das horas, escreve com o teu bico celeste

o meu epitáfio, um poema

de amor para a mulher que me prendeu e me fez livre,

a que vive em mim, a que acredita em mim,

a que como tu desafia as manhãs e surpreende a noite,

a minha amada, pássaro, a mulher que eu amo

como os poetas amam a liberdade de alguns pássaros

e de todos os pobres.

.

Joaquim  Pessoa

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