Archive for Abril, 2013

Camões e a Tença
Abril 25, 2013

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença

seja paga na data combinada

Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde

País que tu nomeias e não nasce

.

Em tua perdição se conjuraram

calúnias desamor inveja ardente

e sempre os inimigos sobejaram

a quem ousou seu ser inteiramente

.

E aqueles que invocaste não te viram

porque estavam curvados e dobrados

pela paciência cuja mão de cinza

tinha apagado os olhos no seu rosto

.

Irás ao Paço irás pacientemente

pois não te pedem canto mas paciência

.

Este país te mata lentamente

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Sophia de Mello Breyner Andresen

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O Viandante
Abril 16, 2013

Trago notícias da fome

que corre nos campos tristes:

soltou-se a fúria do vento

e tu, miséria, persistes.

Tristes notícias vos dou:

caíram espigas da haste,

foi-se o galope do vento

e tu, miséria, ficaste.

Foi-se a noite, foi-se o dia,

fugiu a cor às estrelas:

e, estrela nos campos tristes,

só tu , miséria, nos velas.

chuva4

Carlos de Oliveira

Este é o tempo
Abril 9, 2013

Este é o tempo

da selva mais obscura

.

Até o ar azul se tornou grades

e a luz do sol se tornou impura

.

Esta é a noite

densa de chacais

pesada de amargura

.

Este é o tempo em que os homens renunciam.

noite1

Sophia de Mello Breyner Andresen

Entre Março e Abril
Abril 4, 2013

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Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre Março e Abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

.

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil.

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

.

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálida, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

Eugénio de Andrade