Archive for Junho, 2013

As Gaivotas
Junho 24, 2013

As gaivotas. Vão e vêm. Entram

pela pupila.

Devagar, também os barcos entram.

Por fim o mar.

Não tardará a fadiga da alma.

De tanto olhar, tanto

olhar.

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Eugénio de Andrade

Ah, no silêncio do quarto
Junho 18, 2013

Ah, no terrível silêncio do quarto
o relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.

criança

ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA), em LIVRO DE VERSOS
(16-8-1929)

Luís de Camões
Junho 10, 2013

camoesQuem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
sem falta lhe terá bem merecido
que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
quem o contrário diz não seja crido:
seja por cego e apaixonado tido,
e aos homens e ‘inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
em mim mostrando todo o seu rigor,
ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
todos estes seus males são um bem,
que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís Vaz de Camões presume-se tenha nascido em Lisboa por volta de 1524, de uma família do Norte (Chaves). Viveu algum tempo em Coimbra onde, segundo consta, frequentou aulas de Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz onde tinha um tio padre. Regressou a Lisboa, levando aí uma vida de boémia. Em 1553, depois de ter sido preso devido a uma briga, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde escreveu, de acordo com seus estudiosos, grande parte da sua obra. Regressa a Portugal em 1569, pobre e doente, conseguindo publicar Os Lusíadas em 1572 graças à influência de alguns amigos junto do rei D. Sebastião. Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580. É considerado o maior poeta português, situando-se a sua obra entre o Classicismo e o Maneirismo. Obras: “Os Lusíadas” (1572), “Rimas” (1595), “El-Rei Seleuco” (1587), “Auto de Filodemo” (1587) e “Anfitriões” (1587).

Panorama
Junho 4, 2013

Pátria vista da fraga onde nasci.

Que infinito silêncio circular!

De cada ponto cardeal assoma

a mesma expressão muda.

É de agora ou de sempre esta paisagem

sem palavras,

sem gritos,

sem o eco sequer de uma praga incontida?

Ah! Portugal calado!

Ah! Povo amordaçado

por não sei que mordaça consentida!

paisagem com árvore

Miguel Torga