Archive for Julho, 2013

Sacode as nuvens
Julho 30, 2013

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

rosado

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,  em  CORAL

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)

Ao amor antigo
Julho 15, 2013

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

.

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

a antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

mandala-amor

Carlos Drummond de Andrade

Porque cada segundo é precioso…
Julho 8, 2013

Como se tivesse todo o tempo, não
se lembra do tempo que foi, nem pensa no que
há-de vir. O tempo é a mesa vazia onde
nada cabe, como se estivesse cheia; e
entre passado e futuro as sombras
alargam-se pelo chão, desenhando
a escadaria por onde desceu, até
hoje, numa incerteza de passos
infalíveis.

tempo

Nuno Júdice

Voz
Julho 1, 2013

Era uma voz que doía,

mas ensinava.

Descobria,

mal o seu timbre se ouvia

no silêncio que escutava.

.

Paraísos, não havia.

Purgatórios, não mostrava.

Limbos, sim, é que dizia

que os sentia,

pesados de cobardia,

lá na terra onde morava.

.

E morava neste mundo

aquela voz.

Morava mesmo no fundo

dum poço dentro de nós.

penumbra

Miguel  Torga