Archive for Agosto, 2013

Fui sabendo de mim
Agosto 27, 2013

Fui sabendo de mim

mia couto

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

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Epitáfio
Agosto 20, 2013

De mim não buscareis, que em vão vivi

de outro mais alto que em mim próprio havia.

Se em meus lugares, porém, me procurardes

o nada que encontrardes

eu sou e minha vida.

.

Essas palavras que em meu nome passam

nem minhas nem de altura são verdade.

Verdade foi que de alto as desejei

e que de mim só maldições cobriam.

Debaixo delas a traição se esconde,

porque demais me conheci distante

de alturas que de perto não existem.

.

Fui livre, como as águas, que não sobem.

Pensei ser livre, como as pedras caem.

O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,

que o dia-a-dia

em que me via

ele mesmo apenas era e nada mais.

.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos

do muito amor que ao nada  se dedica.

jorge-de-sena

Nada que fui, de mim não fica nada.

E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes

o nada que encontrardes

eu sou e a minha vida.

Jorge de Sena

Fronteira
Agosto 13, 2013

De um lado terra, doutro lado terra;

de um lado gente, doutro lado gente;

lados e filhos desta mesma serra,

o mesmo céu os olha e os consente.

.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;

uivos iguais de cão ou de alcateia.

E a mesma lua lírica que vem

corar meadas de uma velha teia.

.

Mas uma força que não tem razão,

que não tem olhos, que não tem sentido,

passa e reparte o coração

do mais pequeno tojo adormecido.

paisagem

Miguel  Torga

A Palavra não tem Olhos
Agosto 6, 2013

A Palavra não tem olhos mas pálpebras de neblina

às vezes transparente. Por isso ela caminha lentamente

como uma sombra em corredores de sombra

e treme como se fosse cair ou perder o seu hálito

.

Ela quer ler a sua própria chama

que às vezes não é mais do que um archote de cal

Nunca sabe o dia da semana porque o seu calendário é o vento

e arde sob a chuva da sombra como uma lâmpada trémula

.

Mas o seu rosto não se vê em nenhum espelho

e embate na porta atrás da qual se ouvem ecos

que não são de ninguém ou já foram e talvez sejam de retratos

e procura levantar a parede que falta sempre num dos seus lados

fosforo-autor-desconhecido

António Ramos Rosa