Archive for Outubro, 2013

Não perguntes
Outubro 30, 2013

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.

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Eugénio de Andrade

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Plateia
Outubro 22, 2013

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
a não ser conivente
na farsa do presente
posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
nem talvez a mais certa,
a da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
do que presta
e não presta
nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
quotidiana.
Esta comédia desumana
e triste,
que cobre de soturna maldição
a própria indignação
que lhe resiste.

Morte
MIGUEL TORGA   em  CÂMARA ARDENTE

Verso sem despedida
Outubro 15, 2013

Haverás de bater em minha porta

quando a noite chegar serena, fria,

carregando a paixão pesada e morta,

relembrarás a minha companhia.

.

Distante da esperança que conforta,

perto do desengano que crucia,

verás que toda volta à rua é torta,

e a casa encontrarás sempre vazia.

.

Tu chorarás ao ver o meu desprezo

sem poder reduzir, sequer, o peso

da cruz que colocaste em minha vida.

.

E nessa hora de dor que mortifica,

a poetisa parte… o verso fica

sem ódio, sem rancor, sem despedida…

outono_londres_c2a9imagoverbalis

Sarah Rodrigues

A perfeição
Outubro 8, 2013

O que me tranquiliza

é que tudo o que existe

existe com uma precisão absoluta.

.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nem uma fracção de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe

com essa exatidão

nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós

como um sentido secreto das coisas.

.

Nós terminamos adivinhando, confusos,

a perfeição.

cerejeira-em-flor

Clarice  Lispector

A Festa do Silêncio
Outubro 1, 2013

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

espuma
António  Ramos  Rosa